terça-feira, janeiro 13, 2026



Escolho o lado da vítima, seja ela quem for - Por Rui Pires da Silva
Condeno de forma absolutamente inequívoca qualquer tipo de violência ou assédio, seja moral, sexual ou de outra natureza, e seja contra quem for. Este princípio é para mim inegociável. Mas rejeito também, com igual firmeza, qualquer forma de difamação ou assassinato de carácter.

A verdade e a justiça não podem ser usadas seletivamente nem colocadas ao serviço de agendas de ocasião. Tudo o que se discute neste caso é, até ao momento, no plano do alegado, e é precisamente por isso que importa manter rigor, proporcionalidade e respeito pelas instituições.

Segundo é público, a denunciante é uma pessoa altamente qualificada, com uma sólida formação jurídica e conhecedora profunda do funcionamento das instituições e da lei. Os factos relatados terão ocorrido há vários anos. Foi noticiado que a mesma optou por expor o caso publicamente a poucos dias de umas eleições, tendo apagado a publicação pouco depois. Até ao momento, não há conhecimento público de que tenha sido apresentada uma queixa formal às autoridades. Perante isto, parece-me legítimo perguntar se, tendo sido decidida a exposição do caso, houve também o passo de contactar as entidades que podem verdadeiramente apurar a verdade. Alguém com este preparo saberá que a justiça se deve realizar nos tribunais e não apenas no espaço mediático.

A partir do momento em que a exposição é feita, os fatores de medo ou retração que tantas vezes impedem as vítimas de denunciar parecem dar lugar a uma vontade de esclarecimento que a justiça só pode dar se for chamada a intervir.

Perante uma denúncia desta gravidade, pergunto também se o gabinete onde a denunciante trabalha terá já disponibilizado o apoio psicológico necessário. É o que se espera num caso destes, porque sabemos que situações desta natureza deixam marcas profundas. São atos que, a confirmarem-se, são horrendos e absolutamente condenáveis. É essencial que exista todo o apoio para proteger quem afirma ter sido vítima de um sofrimento silencioso de anos.

Prefiro afastar leituras políticas automáticas. Não faço associações nem insinuações sobre o local de trabalho da denunciante ou sobre as suas simpatias políticas. Mas digo com total clareza: se algum dia se provasse ter havido instrumentalização política de um tema tão sensível, isso seria vergonhoso. Seria uma situação de tal gravidade que exigiria esclarecimentos ao mais alto nível, porque a democracia não pode permitir que este tipo de temas seja usado como arma de arremesso. A política deve ser um espaço de responsabilidade, sobretudo em assuntos tão sérios.

Se a denúncia se vier a provar verdadeira, envergonha-me enquanto cidadão que alguém responsável por tais factos possa aspirar à Presidência. Por isso mesmo, em nome da verdade e das muitas vítimas reais, seria importante perceber se houve uma queixa formal ou se o tempo decorrido já não o permite legalmente.

A justiça precisa de factos concretos, não de suspeitas lançadas ao ar ou de julgamentos feitos nas redes sociais. No final de contas, as provas são a única forma de separar quem foi realmente vítima de quem é agressor.

Lamento profundamente que tudo isto surja na reta final de umas eleições. Se os factos forem verídicos, o seu conhecimento peca por tardio. Se forem infundados, o dano vai muito além dos envolvidos; é um ataque à credibilidade de todas as vítimas que, por medo real, permanecem em silêncio. Num tema tão sensível, o que se exige é rigor e respeito pelas instituições e pelas verdadeiras vítimas, que merecem proteção e nunca o uso do seu sofrimento como trunfo político.

Quero deixar claro que não escolho o lado da senhora nem do senhor. Escolho o lado da vítima, seja ela quem for. É esse o único lugar moralmente possível quando falamos de temas desta gravidade.

Rui Pires da Silva https://www.ovarnews.pt/escolho-o-lado-da-vitima-seja-ela-quem-for-por-rui-pires-da-silva/

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