segunda-feira, janeiro 19, 2026
Há dois anos escrevi no OvarNews que a vacina da gripe não serve apenas para evitar dias de cama: também pode reduzir enfartes e AVC. Hoje há mais uma peça forte a apoiar essa mensagem: uma grande meta-análise (155 estudos, com dados até julho de 2024) conclui que várias infeções virais aumentam o risco de doença cardiovascular. ( Viral Infections and Risk of Cardiovascular Disease: Systematic Review and Meta-Analysis publicada no Journal of the American Heart Association)
A lógica é simples: durante uma infeção, o corpo entra num estado de inflamação, “sangue mais propenso a coagular”, batimento cardíaco mais rápido e maior stress sobre os vasos. Em quem já tem placas de colesterol nas artérias (muitas vezes sem saber), essa fase pode tornar as placas mais instáveis e facilitar trombos. Resultado: abre-se uma janela de vulnerabilidade em que o risco de enfarte e AVC sobe.
A janela de vulnerabilidade: quando o risco dispara
1) Gripe (Influenza): risco muito alto no primeiro mês — especialmente nos primeiros dias
Quando a gripe é confirmada por teste, observa-se cerca de 4 vezes mais risco de enfarte e cerca de 5 vezes mais risco de AVC no primeiro mês após a infeção.
2) COVID-19: risco aumentado nas primeiras semanas e pode prolongar-se
Após infeção por SARS-CoV-2, o risco de enfarte e AVC pode ser cerca de 3 vezes maior nas semanas seguintes, com evidência de aumento até várias semanas/meses depois.
3) Zona (Herpes zoster): pico logo a seguir e risco que pode manter-se por algum tempo
Após um episódio de zona, o risco de AVC aumenta mais nas primeiras semanas (aproximadamente 1,5 vezes mais), podendo manter-se elevado por alguns meses.
4) VIH: aqui não é uma janela curta — é um risco persistente
No VIH, o problema é a inflamação crónica ao longo do tempo. As pessoas com VIH têm, em média, cerca de 1,6 vezes mais risco de doença coronária e cerca de 1,5 vezes mais risco de AVC.
5) Hepatite C: risco crônico e cumulativo
Também na hepatite C, o risco tende a ser de longa duração: observa-se cerca de 1,3 vezes mais risco de doença coronária e cerca de 1,2 vezes mais risco de AVC.
A vacinação faz diferença?
Se infeções aumentam enfartes e AVC, prevenir infeção (ou pelo menos reduzir gravidade) é prevenção cardiovascular. E isto não é teoria: uma meta-análise de ensaios clínicos mostrou que a vacinação contra a gripe se associou a menos cerca de 34% de eventos cardiovasculares major (como enfarte/AVC e morte cardiovascular).
Traduzindo para o dia a dia:
Vacina da gripe: anual, antes do pico do inverno.
Vacinas COVID-19: reforços ajustados ao risco e às recomendações em vigor.
Vacina do zoster: reduz episódios de zona e complicações — e ajuda a evitar aquela fase pós-zona em que o risco de AVC sobe.
VIH e hepatite C: não são “problemas de pele” nem “só do fígado”. O equivalente à vacina aqui é prevenção, rastreio e tratamento, porque o risco é crónico.
O que é útil saber
Se tem fatores de risco (idade, hipertensão, diabetes, colesterol, tabaco, doença cardíaca), não adie vacinas sazonais.
Durante e nas semanas após uma infeção, não banalize sinais de alarme: dor no peito, falta de ar marcada, palpitações persistentes, fraqueza súbita de um lado do corpo, alteração da fala ou da visão.
Evite “compensar” com esforço intenso logo após infeção. Retoma gradual é bom senso. O corpo está a recuperar.
No VIH e na hepatite C, seguir tratamento e controlar o risco cardiovascular clássico (pressão, colesterol, açúcar, tabaco) é parte do mesmo pacote.
A ideia final é direta: uma infeção pode ser o gatilho que faltava para um enfarte ou um AVC em quem já tem risco. Vacinação (quando existe) e tratamento (quando é o caso) são maneiras concretas de fechar essa janela de vulnerabilidade e proteger mais do que os pulmões: proteger também o coração e o cérebro.
Por favor, não recuse as vacinas porque a vizinha disse que ficou gripada e com dores no corpo. A vizinha de certeza que não leu este estudo!
E esses efeitos secundários são normais, conhecidos e não duram tanto tempo como um enfarte ou um AVC.
Partilhe esta informação com todos e também com a vizinha que não gosta de vacinas.
Eurico Silva
Obrigado, Dr. Eurico.
Melhores Cumprimentos,
Susana Alves - Direção Comercial
Contacto: 926969900
A segunda, 19/01/2026, 01:39, Eurico Silva escreveu:
Bom ano,
aqui vai um artigo
Infecções virais: a “janela de risco” para enfarte e AVC. A vacinação também protege o coração!
Há dois anos escrevi no OvarNews que a vacina da gripe não serve apenas para evitar dias de cama: também pode reduzir enfartes e AVC. Hoje há mais uma peça forte a apoiar essa mensagem: uma grande meta-análise (155 estudos, com dados até julho de 2024) conclui que várias infeções virais aumentam o risco de doença cardiovascular. ( Viral Infections and Risk of Cardiovascular Disease: Systematic Review and Meta-Analysis publicada no Journal of the American Heart Association)
A lógica é simples: durante uma infeção, o corpo entra num estado de inflamação, “sangue mais propenso a coagular”, batimento cardíaco mais rápido e maior stress sobre os vasos. Em quem já tem placas de colesterol nas artérias (muitas vezes sem saber), essa fase pode tornar as placas mais instáveis e facilitar trombos. Resultado: abre-se uma janela de vulnerabilidade em que o risco de enfarte e AVC sobe.
A janela de vulnerabilidade: quando o risco dispara
1) Gripe (Influenza): risco muito alto no primeiro mês — especialmente nos primeiros dias
Quando a gripe é confirmada por teste, observa-se cerca de 4 vezes mais risco de enfarte e cerca de 5 vezes mais risco de AVC no primeiro mês após a infeção.
2) COVID-19: risco aumentado nas primeiras semanas e pode prolongar-se
Após infeção por SARS-CoV-2, o risco de enfarte e AVC pode ser cerca de 3 vezes maior nas semanas seguintes, com evidência de aumento até várias semanas/meses depois.
3) Zona (Herpes zoster): pico logo a seguir e risco que pode manter-se por algum tempo
Após um episódio de zona, o risco de AVC aumenta mais nas primeiras semanas (aproximadamente 1,5 vezes mais), podendo manter-se elevado por alguns meses.
4) VIH: aqui não é uma janela curta — é um risco persistente
No VIH, o problema é a inflamação crónica ao longo do tempo. As pessoas com VIH têm, em média, cerca de 1,6 vezes mais risco de doença coronária e cerca de 1,5 vezes mais risco de AVC.
5) Hepatite C: risco crônico e cumulativo
Também na hepatite C, o risco tende a ser de longa duração: observa-se cerca de 1,3 vezes mais risco de doença coronária e cerca de 1,2 vezes mais risco de AVC.
A vacinação faz diferença?
Se infeções aumentam enfartes e AVC, prevenir infeção (ou pelo menos reduzir gravidade) é prevenção cardiovascular. E isto não é teoria: uma meta-análise de ensaios clínicos mostrou que a vacinação contra a gripe se associou a menos cerca de 34% de eventos cardiovasculares major (como enfarte/AVC e morte cardiovascular).
Traduzindo para o dia a dia:
Vacina da gripe: anual, antes do pico do inverno.
Vacinas COVID-19: reforços ajustados ao risco e às recomendações em vigor.
Vacina do zoster: reduz episódios de zona e complicações — e ajuda a evitar aquela fase pós-zona em que o risco de AVC sobe.
VIH e hepatite C: não são “problemas de pele” nem “só do fígado”. O equivalente à vacina aqui é prevenção, rastreio e tratamento, porque o risco é crónico.
O que é útil saber
Se tem fatores de risco (idade, hipertensão, diabetes, colesterol, tabaco, doença cardíaca), não adie vacinas sazonais.
Durante e nas semanas após uma infeção, não banalize sinais de alarme: dor no peito, falta de ar marcada, palpitações persistentes, fraqueza súbita de um lado do corpo, alteração da fala ou da visão.
Evite “compensar” com esforço intenso logo após infeção. Retoma gradual é bom senso. O corpo está a recuperar.
No VIH e na hepatite C, seguir tratamento e controlar o risco cardiovascular clássico (pressão, colesterol, açúcar, tabaco) é parte do mesmo pacote.
A ideia final é direta: uma infeção pode ser o gatilho que faltava para um enfarte ou um AVC em quem já tem risco. Vacinação (quando existe) e tratamento (quando é o caso) são maneiras concretas de fechar essa janela de vulnerabilidade e proteger mais do que os pulmões: proteger também o coração e o cérebro.
Por favor, não recuse as vacinas porque a vizinha disse que ficou gripada e com dores no corpo. A vizinha de certeza que não leu este estudo!
E esses efeitos secundários são normais, conhecidos e não duram tanto tempo como um enfarte ou um AVC.
Partilhe esta informação com todos e também com a vizinha que não gosta de vacinas.
Eurico Silva - USF João Semana Ovar https://www.ovarnews.pt/a-vacinacao-tambem-protege-o-coracao-por-dr-eurico-silva/
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