terça-feira, janeiro 20, 2026

 

Há momentos em que a política internacional deixa de poder ser analisada com o distanciamento confortável da geopolítica e passa a exigir uma posição moral clara. O que está a ser feito aos curdos na Síria é um desses momentos. E o que se passa, por estes dias, na Síria não diz respeito apenas aos EUA, à Turquia ou ao Médio Oriente, nem apenas às chamadas “grandes potências”. Diz respeito a todos os que, em todo o mundo e em particular em Portugal, se dizem democratas.

Durante décadas, o povo curdo fez aquilo que o chamado “mundo livre” não quis fazer diretamente. Combateu no terreno, sustentou várias frentes de guerra em simultâneo e pagou com o seu sangue aquilo que outros preferiram pagar em comunicados e palavras vazias. No Iraque, foi peça-chave no enfraquecimento do regime de Saddam Hussein. Em 2003, quando a frente norte da invasão americana parecia inviável, foram os curdos que a tornaram possível. Mais tarde, quando o terrorismo jihadista se espalhou como uma praga na Síria e no Iraque, foram novamente os curdos que ficaram e venceram com botas no terreno a ameaça do chamado Estado Islâmico.

Essa derrota não aconteceu por milagre nem apenas por bombardeamentos de precisão realizados a partir de grande altitude por drones e aviões norte-americanos. Aconteceu porque forças curdas avançaram aldeia a aldeia, rua a rua, casa a casa, pagando esse avanço com mais de quinze mil mortos. Quinze mil vidas sacrificadas para travar uma ameaça que não era apenas regional, mas global.

Enquanto isso, as democracias ocidentais protegiam os seus soldados, faziam tudo para não os colocar na linha da frente e evitar as inevitáveis baixas.

Em troca, os curdos não pediram um império que se estendesse por partes da Turquia, da Síria, do Iraque e do Irão, nem um protetorado internacional, nem privilégios especiais. Pediram o mínimo: poderem autogovernar-se com um grau elementar de autonomia, garantias de segurança como minoria e o reconhecimento da sua língua numa região marcada por séculos de autoritarismo violento, sectarismo radical e repressão sistemática. Pediram segurança depois do sacrifício feito em nome de todos nós mas o que obtiveram foi abandono.

Esse abandono tem agora uma forma concreta e verificável. As Forças Democráticas Sírias foram empurradas para um acordo com Damasco que, na prática, equivale a uma rendição. Campos petrolíferos, barragens, passagens de fronteira, prisões que albergam combatentes do Estado Islâmico, toda a região semi-autónoma construída com enorme custo humano, tudo foi entregue. Não houve garantias estruturais, não houve salvaguardas políticas reais, não houve futuro negociado. Houve capitulação.

Os combatentes curdos nem sequer foram integrados como unidades. Entraram como indivíduos dispersos, sem cadeia de comando própria, sem estrutura autónoma, sem capacidade de pressão. Isto não é integração: é dissolução. É o fim de qualquer força curda independente com capacidade militar ou política.

As consequências foram imediatas. Deir ez-Zor, com o seu petróleo e produção cerealífera, e Raqqa, central no controlo energético, mudaram rapidamente de mãos. Com esses territórios, os curdos perderam num único movimento o financiamento e o poder negocial que ainda possuíam. Sem recursos, não há autonomia. Sem autonomia, não há proteção.

Washington chamou a isto um “ponto de inflexão”. Traduzido em linguagem clara, significa apenas isto: deixámos de os apoiar. O que realmente aconteceu foi mais simples e mais cínico. As negociações arrastaram-se, os prazos foram ultrapassados, as forças sírias avançaram no terreno, e quando os curdos ficaram encurralados aceitaram condições piores do que aquelas que tinham rejeitado durante meses. Não foi um acordo livre. Foi um acordo imposto pelas circunstâncias criadas deliberadamente.

O grande vencedor é a Turquia. Combatentes ligados ao PKK são afastados, a autonomia curda é esmagada e Ancara obtém tudo o que queria sem disparar um único tiro. A repressão faz-se por interposta capitulação, com a bênção tácita do Ocidente.

Os curdos sabiam que isto vinha aí. Comandantes das Forças Democráticas Sírias pediram publicamente aos Estados Unidos que interviessem, que travassem o processo, que não os deixassem cair. Depois do acordo, seguiu-se o silêncio. A mensagem foi recebida e compreendida: estavam sozinhos.

Há ainda um elemento que os mesmos responsáveis políticos fingem não ver. Damasco passa agora a controlar campos e prisões que albergam mais de cinquenta mil combatentes e familiares do Estado Islâmico. Isto não é estabilidade. É um problema adiado. A previsão é simples e realista: fugas em massa num horizonte de meses, nova pressão militar turca sobre o que resta das áreas curdas no espaço de um ano, e os Estados Unidos a fingirem que nada disto foi uma traição.

Nós, no Ocidente, usámos os curdos para derrotar o Estado Islâmico. Depois observámos, com frieza, enquanto perdiam tudo. Ao abandonar, mais uma vez, os curdos, o Ocidente fez uma escolha política consciente, tomada com pleno conhecimento das consequências.

Há aqui uma lição que os democratas portugueses não podem ignorar. As alianças, quando desprovidas de princípios, tornam-se descartáveis. A retórica dos direitos humanos vale pouco quando entra em conflito com interesses imediatos. E a ideia de que o “Ocidente” age sempre em nome da democracia desmorona-se quando os aliados mais leais são sacrificados assim que deixam de ser úteis.

Não se trata de romantizar os curdos nem de negar a complexidade da região. Trata-se de reconhecer um facto simples e incómodo: quem combateu o terror foi abandonado, e quem conviveu com o terror foi tolerado. Entre sacrifício e conveniência, escolheu-se a conveniência. Entre lealdade e cálculo, escolheu-se o cálculo.

Aos democratas em Portugal cabe a responsabilidade de não normalizar isto, de não aceitar que a realpolitik apague linhas morais básicas e de não fingir que a defesa da democracia termina nas nossas fronteiras ou nas alianças que nos são mais confortáveis.

Rui Martins

Paulo Deus

 

 

O Irão atravessa atualmente uma crise social e humanitária grave, marcada por manifestações em várias cidades do país e por uma resposta repressiva cada vez mais violenta por parte das autoridades. O que está a acontecer já não pode ser entendido como protestos pontuais, mas como um sinal profundo de rutura entre uma parte significativa da sociedade iraniana e o regime político em vigor.

 

Nos últimos dias, multiplicaram-se relatos de uso excessivo da força contra civis desarmados, detenções arbitrárias e execuções, num contexto de colapso económico acentuado. A inflação destruiu salários e poupanças, o acesso a medicamentos tornou-se difícil para muitos reformados e famílias, e a escassez de bens essenciais, como energia e água, agravou ainda mais as condições de vida da população.

 

Apesar deste cenário, milhares de cidadãos continuam a manifestar-se. Este comportamento não resulta de qualquer romantização política, mas de um sentimento generalizado de desespero, transformado em coragem cívica. Quando cidadãos comuns enfrentam forças armadas sem recorrer à violência, está em causa não apenas a ordem pública, mas a própria legitimidade moral do poder que governa.

 

Esta situação não é indiferente à Europa nem a Portugal. A defesa dos direitos humanos, da dignidade humana e do Estado de direito é um pilar fundamental das democracias europeias e da política externa da União Europeia. Ignorar ou minimizar o que está a acontecer no Irão compromete a coerência desses princípios e contribui para a instabilidade regional, com impactos que ultrapassam largamente as fronteiras iranianas.

 

Neste contexto, consideramos essencial que as instituições europeias e portuguesas adotem uma posição clara e consequente. Em particular, apelamos a:

 

1. uma condenação política inequívoca da repressão exercida contra civis;

 

2. a adoção de medidas diplomáticas e políticas proporcionais à gravidade da situação;

 

3. o reforço da proteção internacional para dissidentes, jornalistas e ativistas perseguidos, bem como o apoio ao acesso livre à informação.

 

A história demonstra que transições políticas são processos complexos e incertos. No entanto, também mostra que o silêncio institucional perante violações graves de direitos humanos não é neutro. É, em si mesmo, uma forma de escolha.

 

Num momento em que o sofrimento da população iraniana é evidente, espera-se que as democracias europeias estejam à altura dos valores que afirmam defender.

Aida Sigharian, Ashkan Seifi e Rui Martins

 

 

 

 

  https://www.ovarnews.pt/irao-crise-social-repressao-e-responsabilidade-internacional/

Sem comentários: