terça-feira, janeiro 20, 2026



Praça das Galinhas (V) - Por Edgar Branco
A multidão distraída, hipnotizada, adormecida nos sentidos. Perdida no espetáculo. Cega ao que se desenrola nas sombras.

Eles não percebem. Não sentem o que se aproxima. Mas os galos percebem.

E então… O momento chega.

— C’est maintenant, Galo Coque Sportif! O momento é agora! — ruge Galo Alvinegro, a voz firme como aço.

O francês arqueja, a respiração ofegante, a lâmina trêmula nas mãos.

— Main-te-nant? Maintenant même?!

Os dois guerreiros olham-se, respiram fundo, e então, fazem o impensável. Viraram-se, de costas um para o outro e de frente para a multidão.

O rugido dos espectadores morre na garganta. O choque é absoluto.

— O que estão a fazer?

— Continuem! Matem-se!

— Queremos sangue!

Mas Galo Alvinegro ergue a voz. E, pela primeira vez naquela arena, as palavras soam mais fortes do que o aço.

— Vocês! Cobardes! Que nos seguram, que nos prendem, que nos destroem!

A multidão silenciou.

— Hoje, aqui, neste dia que jamais será esquecido… enfrentamo-vos!

O francês cerra os punhos.

— Nos sommes des guerriers! Nous ne sommes pas vos amusements!

Galo Alvinegro cospe no chão.

— As correntes do nosso destino foram quebradas! Não seremos mais entretenimento!

E então, num grito de fúria, ele avança contra a multidão. Galo Coque Sportif acompanha-o.

A plateia estremece, mas só ouviram sons de galos.

— Parrrhhh! Parrhhhh! Parhhh!

Para eles, continua a ser um espetáculo, nada além de gritos de bichos. Nada além de um ato teatral.

Mas então… algo acontece, uma vez mais. Algo que ninguém esperava.

Do meio da praça, um novo som se ergue. Um som antigo, um som esquecido.

E quando os olhos da multidão finalmente percebem…É tarde demais.

Elas chegaram, as galinhas, chegaram aos milhares, lideradas pelas amadas dos dois galos.

Bernadette, a nobre senhora francesa, elegante e firme, de pestanas aprimoradas, pronta para comandar.

Galinácea, a alma apaixonada do Vareiro, de crista dourada, os olhos ardendo em ira.

Vieram todas.

As galinhas de Ovar e de além-mar.

As esquecidas.

As humilhadas.

As condenadas ao silêncio.

Mas, naquele dia, elas não se calaram, elas gritavam.

Milhares de asas cortavam o ar.

Milhares de bicos afiados buscavam vingança e a multidão não teve tempo de reagir.

O caos instalou-se, os gritos se confundiam.

Bichos ou gente? Era impossível distinguir.

Lanças em chamas, espadas ao chão, pernas corriam sem rumo. E no centro de tudo, os dois galos, cobertos de sangue e suor, liderando o levante.

A última batalha, a batalha das galinhas.

E naquele dia, naquele lugar que antes fora prisão,

O nome mudou.

O lamento transformou-se em glória.

E o Largo Mal Fadado tornou-se, para sempre, A Praça das Galinhas.

Artur fita Delfim, os olhos vastos, mergulhados num silêncio reverente. Agora, não era apenas ele quem escutava — toda a praça prendia a respiração, enredada na história que pairava no ar como um feitiço antigo.

FIM

Edgar Branco

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  https://www.ovarnews.pt/praca-das-galinhas-v-por-edgar-branco/

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