Em Ovar, há um desconforto que poucos ousam nomear, um pesar silencioso que se esconde nos sorrisos dos vareiros e se dissolve nos cafés e confeitarias. Não se fala abertamente, mas sente-se. É um lamento disfarçado, uma ferida antiga nunca sarada.
Os ovos moles… são de Aveiro ou de Ovar?
Dizem que este é um dos doces mais icónicos de Portugal, nascido há mais de cinco séculos nos conventos, onde as freiras, com engenho e necessidade, criaram um creme dourado e espesso para evitar o desperdício das gemas. As claras serviam para engomar hábitos e filtrar vinho, e o açúcar, abundante das plantações da Madeira, permitiu-lhes transformar as gemas num recheio delicado, envolto numa hóstia moldada em formas marinhas.
Com o tempo, a receita espalhou-se. Mas enquanto os livros de história insistem em apontar Aveiro como berço dos ovos moles, os vareiros sabem que a verdade não é essa.
E a verdade tem um nome… Dona Guida
Dona Guida era senhora de uma linhagem nobre, uma vareira apaixonada pela sua terra, pela sua gente e pelas iguarias que dali surgiam. Mas não lhe bastava ser admiradora. Queria criar. Queria deixar uma marca que honrasse Ovar, um hino à cidade que tanto amava.
E foi assim que, movida pela vontade de elevar a doçaria vareira, Dona Guida refinou a receita dos ovos moles. Não apenas a recriou, mas tornou-a perfeita. Aprimorou a textura, equilibrou os sabores e transformou um doce simples em algo digno de realeza. Foi nas suas mãos que os ovos moles ganharam a identidade que os faria atravessar gerações.
Mas nem toda a história se escreve com justiça.
E entre a delicadeza dos moldes de búzios e peixes e a cremosidade dourada da gema, há um amargor que só os vareiros conhecem: o peso de uma história usurpada.
E enquanto o nome errado se perpetua, o pecado persiste.
Na doçura do creme dourado, há um travo amargo que os vareiros nunca esqueceram, os Ovos Moles seriam de Ovar. (Continua)
Edgar Branco
https://www.ovarnews.pt/ovos-moles-de-ovar-i-por-edgar-branco/
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