

As espadas encontram-se no ar, o choque do aço contra o aço ressoa pela arena.
Galo Coque Sportif avança primeiro. Leve. Rápido. Preciso.
Os golpes são como rajadas de vento, a lâmina cortando o espaço, tentando atingir o rival. Ele move-se como
um dançarino, girando sobre as esporas, desviando-se com agilidade.
— Hah! Trop lent, trop lent! T’es ridicule, mon ami! — provoca, desviando-se de um golpe rente à crista.
Galo Alvinegro não responde.
Ele bloqueia.
Bloqueia.
Bloqueia.
Cada ataque do rival é parado pelo escudo, cada estocada desviada no último instante. A paciência do Vareiro é
a sua arma. Ele espera. Observa e então, riposta.
Um golpe seco, direto. Um corte profundo.
Sangue espirra. A primeira ferida.
Galo Coque Sportif recua, a mão na face. Os olhos arregalam-se de espanto.
— Sacre bleu! In-cré-di-ble! Comme est-ce possible?! Un misérable de ville pequena me couper la peau?
O Vareiro sorri.
— Impossível? O que é impossível é tu ainda estares de pé.
E então, Galo Alvinegro ataca. Com a força de um trovão, desfere um golpe brutal. Galo Coque Sportif tenta
bloquear, mas a lâmina raspa-lhe a asa.
Agora, ambos sangram.
Ambos conhecem a dor.
O francês, atordoado, cospe para o chão. O sorriso volta-lhe aos lábios.
— Hah! Voilà! Agora sim, une vraie bataille. Se pensas que isso me vai derrubar, tu estás fou, complètement fou!
Galo Alvinegro estreita os olhos.
— Se isso não chega, então vem cá que já levas outra.
O francês ri-se, limpando o sangue.
Os Vareiros
— Jamais! Nos outres, sabemos lutar! Se achas que isto é luta, na France nous sommes plus meilleurs!
A multidão explode, o frenesim da luta cresce como uma tempestade, o som das espadas é música para os
ouvidos dos espectadores.
Mas os galos já não ouvem nada. A armadura começa a desfazer-se. As penas colam-se ao suor e ao sangue e
cada movimento torna-se mais pesado, mais lento.
Mas nenhum deles recua.
A multidão está em êxtase.
— NÃO PAREM! CONTINUEM!
— VAMOS! LUTEM, ANIMAIS!
Já não são guerreiros. Já não são heróis. Apenas bichos de combate. Nada mais do que entretenimento.
Mas os dois oponentes sabem disso.
Sabem que não são livres.
Sabem que esta luta não é apenas pelo público.
— Vamos-lhes dar um espetáculo, algo magnifique! — grita, o Galo Coque Sportif.
Os olhos dos dois encontram-se, e a batalha torna-se uma dança mortal.
Os golpes sucedem-se como poesia violenta. As espadas reluzem como faíscas de uma fogueira prestes a
consumir tudo.
E, ao fundo da praça, um menino escuta, fascinado. Delfim conta a história com fervor, cada palavra uma
centelha de emoção.
Artur, hipnotizado, esquece o gelado a derreter-lhe nas mãos.
— Continua, primo! Por favor!
(Continua)
Edgar Branco https://www.ovarnews.pt/praca-das-galinhas-iv-por-edgar-branco/
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