

E eis que chega o momento tão aguardado.
O Pote Dourado dos Provares, o certame mais ilustre da região, reunia os maiores talentos na arte
da confeitaria e gastronomia tradicional. Apenas os mais exímios criadores de iguarias eram aceites
nesta competição de prestígio, onde o sabor, a apresentação e a história de cada prato seriam
meticulosamente avaliados pelos juízes mais exigentes do reino.
Seria aqui, sob o olhar atento da nobreza e do povo, que Guida mostraria ao mundo a glória do seu
esforço.
Os Vareiros
Guida apresentou-se imaculada, resplandecente como a própria manhã.
O seu vestido branco, de tecido fino e delicado, abria-se em amplas saias que se moviam com
leveza, como se dançassem ao ritmo da sua própria confiança. Um pequeno laço verde-claro
adornava-lhe o pescoço, destacando a cor vibrante dos seus olhos — um detalhe subtil, mas
intencional, pois tudo nela estava milimetricamente pensado para aquele dia.
A jovem atravessou o auditório com a postura de uma verdadeira dama, mas com o coração a
galopar dentro do peito. Não apenas os olhos do júri estavam sobre ela, mas os olhos de toda a
cidade.
Lá, entre os espectadores, encontrava-se o seu pai, sentado na bancada, observando-a com um
orgulho discreto, mas sincero.
As bancadas estavam montadas, os pratos expostos como autênticas obras de arte. Um a um, os
concorrentes preparavam-se para apresentar as suas criações diante dos três juízes, que seriam os
detentores do veredicto final.
Cada prato seria avaliado pela sua apresentação, pela sua história e pelo seu paladar.
Guida aguardava a sua vez. Quando, finalmente, a jovem foi chamada, dirigiu-se com passos firmes
à frente da mesa do júri. O salão caiu em silêncio expectante.
Um dos juízes, um cavalheiro de cabelos grisalhos e olhar penetrante, inclinou-se ligeiramente para a
frente e falou:
— Menina, somos os três juízes deste certame e queremos ouvir de vós: que iguaria nos
apresentais? Guida endireitou os ombros, inspirou fundo e, com um tom seguro e envolvente,
começou o seu discurso.
— Bom dia, ilustres senhores, e bom dia a todos os presentes. — Fez uma pausa breve, deixando
que o seu olhar percorresse o público. — O que hoje vos trago não é apenas um doce, mas sim uma
homenagem.
O júri manteve-se atento, impassível, mas a sala já prendia a respiração.
— Aqui, diante de vós, apresento um doce especial, nascido do espírito das minhas gentes e
moldado pelo próprio elementos dos mares.
Com um gesto elegante, apontou para os pequenos formatos delicados que repousavam sobre a
bandeja — peixes, búzios, conchas e outras figuras marítimas, cada uma moldada com esmero e
preenchida com um creme dourado.
— O mar é mais do que paisagem para o nosso povo — é vida, é história, é luta. Cada pedaço deste
doce simboliza não só a riqueza das águas que nos sustentam, mas também a força e a resiliência
daqueles que delas dependem.
O júri trocou olhares discretos. Estavam interessados.
— Ora, se o mar pode ser cruel, pode também ser doce. E é isso que vos trago: um pedaço do
oceano, transfigurado em delicadeza, um sabor que aquece a alma em gesto de ternura.
Os Vareiros
O murmúrio discreto que se espalhou pela sala era um bom sinal. Guida conseguira capturar a
atenção de todos.
— Interessante… muito interessante… — murmurou um dos juízes.
Outro, de olhar mais céptico, ergueu ligeiramente a sobrancelha e perguntou:
— E quanto ao sabor? Podemos ser servidos?
— Com todo o gosto, senhores.
Com mãos firmes, mas graciosas, Guida serviu delicadamente cada juiz, observando-os com uma
calma forçada enquanto provavam o seu mais grandioso trabalho.
Houve um instante de silêncio absoluto. Um breve momento onde o tempo pareceu suspender-se.
Então, os juízes entreolharam-se.
Um deles limpou os lábios com um lenço bordado, cruzou os braços e declarou:
— Curioso… muito curioso.
Outro, mais enigmático, pousou o doce sobre o prato e inclinou-se ligeiramente para a frente.
— Menina Margarida, podeis esclarecer-nos como foi confeccionada esta iguaria?
Guida, que já esperava a pergunta, manteve a voz firme:
— Estes doces são preparados com gema de ovo e açúcar, meticulosamente trabalhados até
atingirem a textura perfeita. São moldados em hóstia, não apenas como um meio de os conter, mas
também como uma ligação sagrada ao divino. Cada peça é uma oferenda à memória, uma
recordação dos tempos antigos, uma bênção para quem a saboreia.
O mais severo dos juízes, que até então se mantivera impassível, pousou os cotovelos na mesa,
entrelaçou os dedos e, finalmente, esboçou um leve sorriso.
— Um doce de devoção e história… uma fusão entre fé e tradição…
Outro completou, com um brilho de fascínio nos olhos:
— Uma peça de rica doçura, mas também uma criação abençoada.
O impacto das palavras era claro. O murmúrio entre os espectadores cresceu, e até o próprio duque
de Ovar, na bancada, endireitou a postura, percebendo que a sua filha conseguira algo
extraordinário.
Guida sentiu o coração disparar no peito.
Seria suficiente? Teria conquistado o júri?
Agora, restava apenas aguardar a pontuação. A tensão no ar era palpável. Todos prendiam a
respiração.
O destino do seu nome e da sua criação estava prestes a ser decidido. (continua)
Edgar Branco https://www.ovarnews.pt/ovos-moles-de-ovar-iv-por-edgarbranco/
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