sábado, fevereiro 14, 2026

Guida crescera envolta no mais alto manto da protecção, como era próprio das meninas do seu


tempo e da sua condição. Desde tenra idade, rodearam-na de tudo quanto havia de melhor, e os


seus dias foram preenchidos por lições ministradas pelos mais prestigiados tutores. O piano tornou-


se-lhe familiar sob os dedos delicados, a língua francesa fluiu-lhe da boca com a naturalidade dos


grandes salões europeus, e os trajes que lhe adornavam a silhueta eram sempre os mais elegantes,


feitos à medida pelos melhores alfaiates da região. Nunca lhe faltou instrução, requinte ou privilégio.

E, no entanto, faltava-lhe algo.

Na solidão daquela vastidão de salões e corredores, no esplendor das rendas e dos bordados que a


envolviam, residia uma ausência que nem a mais bela tapeçaria poderia preencher: o calor da


infância partilhada.

Era filha única. Não tinha irmãos com quem dividir risos ou travessuras. Não tinha companheiros de


jogos que corressem com ela pelos campos ou que lhe tomassem a mão numa brincadeira


despreocupada. A sua vida, ainda que dourada, estava encerrada dentro dos muros da sua própria


nobreza.

E, por vezes, o peso dessa realidade caía-lhe sobre os ombros com uma melancolia que nem ela


própria compreendia.


Certa tarde, enquanto o pai lia um volumoso tomo na biblioteca, Guida aproximou-se hesitante,


brincando com os dedos sobre a saia engomada. A voz saiu-lhe num tom entre a súplica e a


esperança:


— Paizinho, permiti que eu saia a brincar com as outras crianças? Posso juntar-me a elas, só por um


momento?

O duque, que a adorava com todo o fervor de um pai que vê na filha a mais bela das suas criações,


ergueu os olhos do livro e fitou-a com brandura, mas com firmeza.


— Margarida, minha filha, jamais te esqueças da linhagem a que pertences. És de sangue-azul, de


ascendência real, e deves rodear-te apenas de quem seja digno da tua posição.


— Mas, Paizinho… — insistiu ela, os olhos brilhando numa súplica. — Aqui não tenho ninguém. Não


tenho irmãos, não tenho companhia…

O duque fechou o livro com um gesto solene e apoiou as mãos sobre os braços da imponente


cadeira de carvalho entalhado. A sua voz, embora doce, não deixava espaço para contestações.


— Minha menina, tens tudo o que alguém poderia desejar. Vives rodeada de criadagem que cuida de


cada uma das tuas necessidades, tens terras que se estendem para além do que a vista alcança, e o


mais precioso património que uma jovem pode ter: o nome da tua família. Não sejas ingrata, minha


filha, e vê como vivem os demais.

Os Vareiros

Guida abaixou a cabeça, mordendo o lábio para conter a frustração. No fundo, sabia que o pai a


amava mais do que qualquer coisa no mundo. Mas o amor dele vinha com um preço: o preço do


dever, do nome, da honra.

E, assim, a sua infância foi-se moldando a regras e restrições, afastada das alegrias simples dos


plebeus, destinada a um futuro que já lhe estava traçado.


Mas, dentro dela, crescia um desejo que nem ela própria conseguia explicar.


Nas poucas ocasiões em que lhe era permitido sair da quinta, sempre acompanhada por uma escolta


discreta, Guida passeava pela cidade, observando com fascínio a vida que pulsava nas ruas de


Ovar.

As crianças correndo descalças pela terra batida, subindo às árvores, saltando por entre as poças de


água deixadas pela última chuva. As suas gargalhadas ecoavam no ar, livres, irreverentes,


selvagens.


- Como os invejo… — pensava, enquanto caminhava devagar, sentindo que o peso da sua


condição a separava deles como um véu invisível.


Mas se não podia brincar, podia ao menos observar.

Num desses passeios, deteve-se junto a uma banca de mercado onde se vendiam iguarias da


região. O ar estava impregnado do aroma quente do pão acabado de cozer, das broas de milho, do


açúcar caramelizado dos doces de ovos. Nunca havia provado tais coisas — em casa, a cozinha era


regida por padrões elevados, pratos finos e receitas importadas. Mas ali… ali, as pessoas comiam


com a alma.

Ela viu algo novo. Algo que nunca antes compreendia. O respeito não vinha do nome, mas do sabor.


O encantamento que os clientes expressavam ao receberem os seus doces, os olhos que brilhavam


ao provarem um pedaço de bolo… ali, entre o burburinho do mercado e os cheiros que dançavam no


ar, Guida viu, pela primeira vez, um outro tipo de grandeza.

E nesse instante, uma ideia plantou-se-lhe no espírito como uma semente a germinar.


— Tenho de criar algo assim… algo que me una a eles. Algo que não dependa do meu nome, mas


que seja apenas meu. Algo que, ao ser provado, os faça sorrir e que os ligue a mim e eu a eles.


Um doce especial.


Um doce que transcendesse os títulos e que se tornasse, por si só, uma lenda.

(Continua) https://www.ovarnews.pt/ovos-moles-de-ovar-iii-por-edgar-branco/

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