

Os sucessivos aumentos do preço dos combustíveis em Portugal deixaram de ser uma flutuação conjuntural para se tornarem um problema estrutural com impacto profundo na economia e na vida quotidiana dos cidadãos. Num país onde o transporte rodoviário continua a ser central, tanto para as famílias como para as empresas, o custo da energia traduz-se diretamente no custo de viver e produzir.
Para muitas famílias, o automóvel não é um luxo, mas uma necessidade. A ausência de alternativas eficazes de transporte público em vastas zonas do território obriga milhares de portugueses a depender diariamente do carro. Quando o preço dos combustíveis sobe de forma persistente, o impacto no orçamento familiar é imediato e difícil de absorver. O salário médio em Portugal não acompanha este aumento, comprimindo ainda mais o poder de compra e agravando desigualdades.
Mas o problema não se esgota nas famílias. As empresas portuguesas, sobretudo as pequenas e médias, enfrentam custos operacionais crescentes que reduzem a sua competitividade. O transporte de mercadorias, a logística e até os serviços locais são diretamente afetados. Num mercado global já altamente competitivo, qualquer aumento de custos pode significar a perda de margem, de clientes ou até de viabilidade económica.
Neste contexto, a comparação com Espanha torna-se inevitável e incómoda. Apesar de partilharmos uma fronteira extensa e uma integração económica profunda, os combustíveis continuam sistematicamente mais baratos do lado espanhol. Esta diferença não é apenas uma curiosidade estatística, é um incentivo claro ao chamado “turismo de combustível”, especialmente nas regiões fronteiriças, onde abastecer em Espanha pode representar uma poupança significativa.
A disparidade de preços levanta questões legítimas sobre a política fiscal portuguesa. Uma parte substancial do preço dos combustíveis corresponde a impostos, e Portugal tem historicamente uma carga fiscal mais elevada neste setor do que Espanha. Embora o argumento da sustentabilidade orçamental seja frequentemente invocado, importa questionar se esta estratégia não estará a produzir efeitos contraproducentes, como um menor consumo interno, fuga de receitas para o estrangeiro e pressão adicional sobre a economia nacional.
Por outro lado, a transição energética, tantas vezes apontada como solução de médio e longo prazo, não pode servir de desculpa para ignorar os problemas do presente. A mobilidade elétrica ainda não é uma alternativa acessível ou viável para todos, e a infraestrutura continua desigual. Penalizar o consumo de combustíveis fósseis sem garantir alternativas reais é, na prática, penalizar os cidadãos.
O debate sobre os combustíveis em Portugal exige mais do que respostas pontuais ou medidas temporárias, exige uma reflexão estratégica sobre fiscalidade, mobilidade e coesão territorial. Reduzir a dependência energética é um objetivo legítimo, mas deve ser acompanhado por políticas que não agravem as fragilidades económicas existentes.
Enquanto os preços continuarem a subir e a diferença face a Espanha persistir, a sensação de injustiça e de desvantagem estrutural manter-se-á. E essa perceção, mais do que qualquer imposto, corrói a confiança dos cidadãos e das empresas no rumo económico do país.
Bem sabemos quais são as causas do aumento desmesurado do custo dos combustíveis, mas a guerra no médio oriente não pode justificar tudo, este é um momento em que o Estado tem o dever de baixar significativamente a carga fiscal sobre os combustíveis, sob pena de asfixiar o consumo interno e consequentemente a economia nacional. Simplificando, enquanto encher o depósito esvazia a carteira, não sobram euros para o “resto”.
Fernando Camelo de Almeida
https://www.ovarnews.pt/quando-encher-o-deposito-esvazia-a-carteira-por-fernando-almeida/






















