

Marília caminha sozinha pela cidade. Está cansada, trêmula, sente-se mais só do que o habitual.
Aborrecida em casa, decide sair sem destino certo. Ovar e as suas ruas têm o dom de acalmar
qualquer ânimo.
Caminha com passos firmes, sem direção. A angústia no peito dissipa-se aos poucos, até que os
olhos pousam, por acaso, nos posters envelhecidos ainda presos às janelas do antigo Cine-Teatro.
E recorda.
Recorda...
A viagem no tempo começa.
Era um dia morno. O tipo de dia em que nada acontece, em que a cidade parece adormecida, sem
grandes atividades para oferecer.
Mas Marília sempre teve um talento especial para encontrar soluções.
Pegou no telefone e marcou encontro com as suas melhores amigas, Cíntia e Mónica. Cresceram
juntas — a mesma escola, a mesma cidade, a mesma infância. Mas agora, tudo estava prestes a
mudar.
O 12º ano tinha chegado ao fim, os exames de acesso à universidade tinham corrido bem... mas
seguiriam caminhos diferentes.
Nenhuma delas falava sobre isso.
Havia um silêncio estranho entre as três, uma espécie de pacto não declarado para evitar o
inevitável.
Sem planos para o dia, decidiram fazer o que sempre faziam: perder-se pelas ruas da cidade.
Caminhar juntas, rir sem pressa, fingir que o tempo não estava prestes a separá-las.
— Então, um filme?
— Qual?
— Só há uma tela. Ou vamos às 14h ou então só às 17h, e isso já fica tarde.
— Sim, sim, vamos às 14h.
A decisão havia sido tomada e o filme era o menos importante.
Ao entrar no Cine-Teatro, algo mudou. O riso voltou, a confusão de sempre instalou-se. O cheiro dos
doces da zona, o burburinho das pessoas, a familiaridade daquele espaço.
Só que algo inesperado aconteceu.
O filme não funcionava, tentativa após tentativa, sempre com o mesmo resultado, em nada.
— Vai haver um atraso, pedimos desculpa. — anunciou um dos funcionários.
Mas elas não se importaram. Aproveitaram para rir mais um pouco.
E um novo anúncio.
— Podem ir ao quiosque, têm direito a um chocolatinho.
As três entreolharam-se.
— Olha que sorte. — brincou Cíntia.
A sala estava quase vazia, então a oferta parecia um presente especial, mas o filme continuava sem
arrancar.
Mais conversa, mais risos, mais tempo passado sem preocupação, até que veio a confirmação.
— A fita está estragada. Só poderemos exibir o filme na próxima sessão.
Não fazia mal para as três, pois o que tinha começado como um plano para um dia sem graça,
transformou-se numa memória.
A última memória das três juntas, na sua cidade, como sempre foi.
De volta ao presente, Marília sorri sozinha.
Ali está ela, feliz de novo, ainda que por um instante.
Uma recordação simples, num lugar que já não existe da mesma forma, mas que nunca deixará de
ser um eterno aconchego. (Continua)
Edgar Branco
https://www.ovarnews.pt/o-cine-teatro-iv-por-edgar-branco/