domingo, fevereiro 08, 2026

Nos últimos dias e especialmente ontem ouvimos repetidamente as autoridades fazerem avisos muito claros para que as pessoas evitem sair de casa. O próprio comandante nacional da Proteção Civil foi taxativo ao alertar para riscos reais para a população. Falou de inundações rápidas, quedas de árvores, estradas cortadas e vento capaz de projetar objetos. Não foram avisos ligeiros. Foram alertas sérios e fundamentados.

Acontece que amanhã é dia da segunda volta das eleições presidenciais e espera- se que milhões de pessoas saiam de casa para votar. Sim, milhões, porque nenhum candidato quer uma abstenção elevada. Mas que ela vai ser alta, disso não tenho a menor dúvida.

É aqui que começa a legitimidade da questão. Ficaria a democracia ferida se as eleições fossem adiadas uma semana?

Eu sei que a lei não permite adiar eleições nacionais a não ser em situações muito específicas. Mas perante um cenário destes não faz sentido perguntar se adiar uma semana colocaria a democracia em causa? A democracia não é tão frágil que não aguente sete dias de espera. O que a fragiliza é ignorar a realidade e colocar as pessoas em risco quando existe uma alternativa simples.

Em condições normais é habitual vermos na televisão filas de pessoas à espera para votar. Isso é o normal da democracia. Mas alguém no seu perfeito juízo acredita que grande parte dos portugueses vai sair de casa com o tempo neste estado? Se com bom tempo a abstenção já é o que é, imaginem agora.

Claro que não pode haver democracia à escolha do freguês dependendo do tempo.

Mas aqui não estamos a falar de uma chuvada. Estamos a falar de alertas oficiais para permanecer em casa. Não se pode ter a Proteção Civil a dizer às pessoas para se protegerem e logo a seguir esperar que milhões saiam à rua para votar como se nada fosse.

Há outro cenário que ninguém quer imaginar mas que é perfeitamente possível.

Um dos receios de António José Seguro é que a abstenção seja tão alta que prejudique a legitimidade democrática. E ele tem razão. Uma abstenção recorde é mau para a democracia.

Agora imaginem que a abstenção dispara para lá dos 70% e que Ventura vence a segunda volta. O filme é fácil de prever. Teríamos debates especiais em todas as televisões com comentadores em estado de choque e editoriais inflamados. As esquerdas iam logo exigir que a segunda volta fosse repetida porque a democracia ficou ferida ou porque o presidente eleito não tem legitimidade. Vocês sabem perfeitamente como seria o coro. E sim, estes dois cenários podem acontecer.

Podem mesmo. Depois não vai faltar quem tente arranjar um culpado conveniente. Só não vale mais uma vez pôr as culpas em Passos Coelho.

E aqui por muito que custe admitir o Ventura tocou num ponto real. O problema é que o estilo populista dele faz com que a mensagem se perca no ruído. E também é verdade que tudo o que ele diz é imediatamente atacado pela esquerda e pela

comunicação social. Se a mesma ideia tivesse sido lançada pelo Seguro ou por alguém da chamada esquerda caviar provavelmente seria apresentada como uma medida sensata e responsável. Mas como veio de quem veio foi logo descartada.

Convém dizer isto sem rodeios. Esta discussão sobre o adiamento só não existe porque foi o Ventura a levantá-la. Tenho a certeza de que se tivesse sido outro político não haveria metade do alarido. Da mesma forma que raramente se ouve um comentador admitir que ele ganhou um debate também ninguém vai arriscar dizer que desta vez ele tinha razão. Seria quase um escândalo nacional. Mas sejamos sérios. Concordar com alguém numa ideia concreta não transforma ninguém em apoiante desse partido. É apenas reconhecer um facto.

Para concluir, não estou a defender ninguém. Estou apenas a dizer que num país onde as autoridades pedem às pessoas para não saírem de casa talvez fosse razoável discutir se faz sentido obrigar milhões de eleitores a irem votar nestas condições, uma vez que, para mim, a democracia não se fragiliza por esperar sete dias. Fragiliza-se quando se recusa sequer discutir soluções por causa de quem as propõe.

Rui Pires da Silva (ruipiresdasilva@sapo.pt) https://www.ovarnews.pt/ficaria-a-democracia-ferida-se-as-eleicoes-fossem-adiadas-uma-semana-por-rui-pires-da-silva/

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