

Margarida, ou Guida, como era carinhosamente conhecida, era um dos nomes mais respeitados da
cidade. Filha do duque de Ovar e de uma senhora de linhagem igualmente ilustre, a jovem carregava
consigo o peso da nobreza e a altivez de uma família cuja história se entrelaçava com as raízes mais
profundas daquela terra.
A vasta propriedade onde viviam era um verdadeiro palácio rural, uma quinta senhorial cercada de
vinhedos e jardins meticulosamente cuidados, com estátuas de mármore e fontes que murmuravam
como se fossem guardiãs de segredos antigos. Dentro de seus muros, a etiqueta e a sofisticação
reinavam absolutas.
Naquela manhã, o sol já tingia de dourado as paredes do solar quando a voz doce, mas firme, de sua
mãe ecoou pelos corredores adornados com tapeçarias de importação:
— Guidinha, meu anjo, é chegada a hora. O relógio já aponta as oito e tu mesma pediste que te
despertasse. O grande dia aguarda-te.
Do leito de lençóis finos, Guida abriu os olhos lentamente, como se despertasse de um sonho de
conquistas. Espreguiçou-se com a graciosidade de quem sabe que até os seus menores gestos
devem ser impecáveis e respondeu num tom melodioso, quase ensaiado:
— Minha mãe querida, a tua voz é um bálsamo para o meu despertar. Bem sabia eu que hoje era dia
de batalha, mas que prazer é ser lembrada por ti, com tamanha doçura!
A sua criada apressou-se a ajudá-la a erguer-se, retirando-lhe com destreza o robe de dormir e
preparando o vestido que havia sido escolhido com primor. O tecido era de um branco imaculado,
com bordados discretos nas mangas e um laço em verde-claro ao pescoço, como reflexo do brilho
sereno de seus olhos.
Guida tinha um propósito e, naquele dia, mais do que nunca, sentia o fogo da determinação a arder-
lhe no peito. Iria competir pela primeira vez no mais nobre certame gastronómico das regiões
próximas: O Pote Dourado dos Provares. Um evento ancestral, onde apenas os mais ilustres
criadores de iguarias poderiam apresentar os seus feitos à apreciação de um júri rigoroso e de uma
plateia ávida por novidades.
Entre os vencedores dos anos anteriores, nomes lendários ecoavam como hinos: Joaquim
Fernandes, com o seu divino Pão-de-Ló de Ovar; Manuel Vigarista e os seus inigualáveis Torresmos;
Maria Bernardina e o célebre Polvo em Tinta; Santa Apolónia e as suas Migas; e, por fim, as Batatas
em Risco de Nossa Senhora da Boa Hora, um nome que, só de ser mencionado, já fazia suspirar os
apreciadores.
Mas Guida não queria apenas figurar entre eles. Ela queria brilhar. Queria que o seu nome ecoasse
para além do tempo.
— Não apenas hei de competir, mas triunfarei! Hei de marcar este dia como o momento em que o
meu nome se cravou na história! — murmurou para si mesma, ajustando a postura diante do
espelho.
O seu plano tinha sido meticulosamente traçado ao longo dos anos. Cada detalhe, cada ingrediente,
cada segredo herdado das cozinheiras da sua casa tinha sido estudado e aperfeiçoado. Os Ovos
Moles que Guida levaria ao concurso não seriam apenas um doce – seriam um hino ao paladar, uma
ode à sua cidade.
Mas, mais do que isso, seriam a sua assinatura no mundo.
Pois Guida, desde criança, vivera aprisionada dentro dos muros da sua posição. Nunca lhe haviam
permitido a liberdade dos outros, nunca havia escalado árvores ou corrido descalça pelas ruas como
as crianças do povo. Fora criada para ser uma dama, uma peça de porcelana num tabuleiro de
regras inflexíveis.
E, no entanto, dentro dela sempre houvera um grito sufocado: Eu sou mais! Eu sou mais do que um
título, mais do que um nome! Eu sou capaz de criar algo que transcenda quem sou e de onde venho!
Hoje era o dia de reivindicar esse direito.
Com o coração firme e os olhos faiscando com uma determinação indomável, Guida respirou fundo e
desceu as escadas de pedra polida, onde a sua família e a criadagem já a esperavam.
O momento havia chegado.
Edgar Branco https://www.ovarnews.pt/ovos-moles-de-ovar-por-edgar-branco/
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