

Dá mesmo que pensar. Agora que as eleições presidenciais terminaram oficialmente, e depois de uma campanha em que tantos citaram Francisco Sá Carneiro como exemplo, vale a pena lembrar uma frase dele que continua muito atual.
“A política não é um jogo de partidos nem uma questão que só a eles diga respeito. É um problema da nação que a todos os portugueses afecta e na qual todos estão imersos, pois lhe suportam pelo menos as consequências.”
Basta olhar para o que aconteceu nas últimas semanas para perceber o porquê.
Portugal foi atingido por sucessivas tempestades e depressões fortes. Houve casas e empresas destruídas, pessoas que perderam tudo, estradas cortadas, aldeias isoladas e, o pior de tudo, vítimas mortais a lamentar.
Agora que a situação parece acalmar e se tenta, a pouco e pouco, voltar ao normal, importa destacar a incrível onda de solidariedade de um povo que se une com o único propósito de ajudar, sem olhar a quem. Os portugueses são assim, têm um coração gigante e são solidários por natureza. É justo louvar o trabalho dos autarcas e de todos os agentes de proteção civil, militares e voluntários, que arregaçaram as mangas e as calças e foram para o terreno ajudar.
Mas, se por um lado temos esta solidariedade que nos orgulha, por outro assistimos a um festival de encenação e falta de noção política. Tivemos o vídeo do ministro António Leitão Amaro, focado na sua própria atuação num gabinete enquanto as pessoas perdiam tudo lá fora. Entre desculpas e responsabilidades sacudidas, lá acabaram por apagar o vídeo das redes.
Depois, tivemos o vídeo de André Ventura, em plena campanha para a Presidência, a carregar mantimentos debaixo de uma suposta chuva torrencial.
Soube-se depois que a chuva intensa era falsa, acrescentada provavelmente por inteligência artificial, quando no local caía apenas uma chuva "molha-tolos". É repugnante que se use inteligência artificial para fabricar um cenário de heroísmo sobre o sofrimento real de quem ficou sem nada. É de uma falta de ética
inqualificável.
Ainda houve tempo para ver José Luís Carneiro, líder do PS, a visitar zonasafetadas com um casaco da Proteção Civil vestido, como se fosse uma autoridadeou um operacional no terreno. Falou às televisões assim, num figurino sem
qualquer sentido. E sejamos honestos, se fosse Ventura a aparecer “fardado”, isso seria abertura de telejornais durante três dias.
Para ajudar à festa, ainda reapareceu Eduardo Cabrita, o ex-ministro das “golas inflamáveis”, a comentar nas televisões com uma leveza que fazia parecer que a tragédia era apenas uma oportunidade para atacar este governo. Há momentos em que os políticos deviam saber parar, mas há quem não perca uma ocasião para
aparecer.
O “espetáculo” não ficou por aqui. No meio de tudo isto, a Ministra da Administração Interna entendeu que, a meio do problema, não tinha condições para continuar no cargo. Por muitos motivos que possa ter, um comandante
nunca abandona o barco no meio da tempestade. Como dizia o outro, "jamé". É
uma fuga à responsabilidade quando os portugueses mais precisavam de um
ministério da administração interna forte. Teve de ser o Primeiro-Ministro a assumir o comando político da situação no terreno porque a ministra
simplesmente demitiu-se.
A seu tempo avaliaremos a atuação do governo e, em particular, de Luís Montenegro, mas criticar por criticar neste momento é, no mínimo, cobardia política. É isto que Sá Carneiro denunciava, a política transformada num jogo de
interesses, enquanto o país real fica para segundo plano. No fim, somos nós que
pagamos as faturas da lata com que alguns usam a desgraça alheia para marcar
pontos ou para fugir à responsabilidade.
Termino com mais uma citação de Francisco Sá Carneiro. "A política sem risco
é uma chatice, mas sem ética é uma vergonha".
Rui Pires da Silva
ruipiresdasilva@sapo.pt https://www.ovarnews.pt/a-politica-sem-etica-e-uma-vergonha-e-os-ultimos-dias-provaram-no/
Sem comentários:
Enviar um comentário