

Quando um clube recém-promovido à Liga Portugal disputa a sua primeira temporada na
primeira divisão, o impacto televisivo costuma ser um argumento usado para justificar o
esforço da subida. Mais jogos na televisão, maior visibilidade, mais adeptos a ver o nome
do clube no ecrã. O que raramente se explicita é em que televisão — e se alguém que não
pague uma subscrição consegue ver alguma coisa.
Os dados recolhidos sobre as transmissões de futebol entre 9 de Agosto e 16 de Setembro
de 2026 ajudam a perceber o que essa visibilidade significa na prática. No período de 27
dias com jogos analisado — que corresponde ao arranque da Liga Portugal, antes de a
Taça de Portugal ter começado — todos os 44 jogos da primeira divisão passaram em
canais de subscrição. Foram trinta e oito na Sport TV e seis na Benfica TV, sem qualquer
presença das televisões de sinal aberto.
Para os grandes clubes com adeptos espalhados pelo país e marcas reconhecidas
internacionalmente, este modelo é desconfortável mas suportável — os seus adeptos já
estão habituados a pagar para os ver jogar. Para os clubes regionais com menor
capacidade de tração nacional e bases de adeptos mais circunscritas, as implicações são
mais profundas e menos discutidas publicamente.
O que significa não estar no sinal aberto
Estar no sinal aberto significava, durante décadas, estar acessível a qualquer pessoa com
uma televisão. Não havia filtro económico entre o adepto e o jogo. Os canais nacionais de
sinal aberto — RTP1, RTP2, SIC e TVI, entre outros — continuam hoje a chegar
gratuitamente a casa pela televisão digital terrestre, bastando o equipamento adequado; o
que mudou é que o futebol da Liga saiu deles. Um clube do Algarve ou da Madeira que
aparecia na televisão chegava a todo o país — incluindo às comunidades emigrantes, que
habitualmente sintonizavam os canais generalistas portugueses através de cabo
internacional ou satélite.
A subscrição introduziu um filtro. Não é que o jogo não exista — existe, está a ser
transmitido. Mas quem não tem Sport TV não o vê. E "não ter Sport TV" não é
necessariamente uma questão de desinteresse: pode ser uma questão de custo, de
indisponibilidade do serviço, ou simplesmente de não ter um pacote de televisão por cabo
activo.
Os dados mostram que o Farense e o Portimonense — os dois clubes algarvios nas ligas
profissionais, ambos na Liga Portugal 2 — tiveram nove jogos no período: oito na Sport TV
e um sem canal identificado na grelha. O Marítimo e o Nacional, da Madeira, tiveram sete
jogos na Liga Portugal, todos na Sport TV. O Vitória de Guimarães, com sete jogos, ficou
também integralmente nesse canal. Em nenhum dos jogos com canal identificado houve
transmissão em sinal aberto.
A visibilidade que os direitos televisivos compram — e a que não compram
Há uma diferença entre o alcance potencial de uma transmissão em sinal aberto e o
alcance real de uma transmissão em canal de subscrição. No primeiro caso, qualquer
pessoa com televisão pode ligar e ver. No segundo, só quem pagou.
Esta distinção importa especialmente para os clubes com menores recursos mediáticos. Um
clube da segunda ou terceira cidade do país tem habitualmente uma base de adeptos mais
localizada. A televisão era o mecanismo de expansão dessa base para além da região.
Com a migração para o sinal fechado, esse mecanismo perdeu eficácia — não
desapareceu, mas passou a depender de quem já está envolvido o suficiente para pagar a
subscrição.
Há um paradoxo nisto. Os clubes que mais beneficiariam de exposição televisiva gratuita —
os mais pequenos, os mais regionais, os recém-promovidos — são exactamente aqueles
que menos influência têm nas negociações colectivas dos direitos televisivos. Essas
negociações tendem a ser dominadas pelos interesses dos clubes maiores, que têm maior
poder de barganha e maior peso comercial junto dos operadores.
O papel da imprensa regional neste contexto
Para os jornais regionais que acompanham os clubes da sua área, a ausência de sinal
aberto tem uma consequência editorial concreta: o leitor comum deixou de ter acesso
gratuito ao jogo sobre o qual está a ler. A cobertura jornalística continua — os resultados, as
análises, as entrevistas existem independentemente de o jogo ter ou não passado na
televisão aberta. Em Ovar, por exemplo, é na imprensa local que se segue a AD Ovarense,
que tenta recuperar o protagonismo histórico no futebol português. Mas o contexto de
acompanhamento mudou.
Um adepto que não tenha Sport TV e que leia uma análise do jogo do Marítimo no jornal
regional está a consumir informação sobre algo que não pôde ver. Em gerações anteriores,
esse mesmo adepto teria visto o jogo na RTP ou na SIC e estaria a ler o jornal como
complemento. Hoje, o jornal pode ser o único contacto que teve com o jogo.
Esse é o ecossistema em que os meios regionais de desporto trabalham actualmente. O
novo jornal desportivo que registou estas grelhas mapeou exactamente esse padrão: onde
passam os jogos, em que canais, com que grau de acessibilidade — e os resultados
confirmam que o jornalismo regional de desporto opera hoje num contexto em que o leitor,
muitas vezes, não viu o jogo sobre o qual está a ler.
O que os dados não conseguem medir
Os dados de transmissão dizem onde o jogo passou, não quem o viu. Não há forma de
saber, a partir da grelha, quantos adeptos do Académico de Viseu — clube que teve cinco
jogos no período, quatro na Sport TV e um na Benfica TV — assistiram efectivamente às
transmissões. A cobertura existe; o impacto real é outra pergunta.
A mesma limitação aplica-se à leitura inversa: não se pode concluir que a ausência de sinal
aberto reduziu as audiências dos jogos regionais, porque as audiências não foram medidas
neste estudo. O que foi medido é a grelha — um instrumento de acesso, não de consumo.
E a grelha diz que, no período em análise, o acesso foi integralmente pago.
O que se sabe é que o acesso à Liga Portugal no início desta época foi integralmente
condicionado por subscrição paga. E que os clubes regionais, que dependem de
transmissão televisiva para chegar a adeptos fora da sua área imediata, estão a operar num
modelo que não foi desenhado a pensar neles — mas que é, por agora, o único que existe.
Perceber esse modelo é o primeiro passo para discutir se deve ser diferente. https://www.ovarnews.pt/o-fim-do-jogo-em-sinal-aberto-e-o-que-isso-faz-aos-clubes-pequenos/
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