terça-feira, setembro 29, 2026



O fim do jogo em sinal aberto e o que isso faz aos clubes pequenos
Quando um clube recém-promovido à Liga Portugal disputa a sua primeira temporada na


primeira divisão, o impacto televisivo costuma ser um argumento usado para justificar o


esforço da subida. Mais jogos na televisão, maior visibilidade, mais adeptos a ver o nome


do clube no ecrã. O que raramente se explicita é em que televisão — e se alguém que não


pague uma subscrição consegue ver alguma coisa.

Os dados recolhidos sobre as transmissões de futebol entre 9 de Agosto e 16 de Setembro


de 2026 ajudam a perceber o que essa visibilidade significa na prática. No período de 27


dias com jogos analisado — que corresponde ao arranque da Liga Portugal, antes de a


Taça de Portugal ter começado — todos os 44 jogos da primeira divisão passaram em


canais de subscrição. Foram trinta e oito na Sport TV e seis na Benfica TV, sem qualquer


presença das televisões de sinal aberto.

Para os grandes clubes com adeptos espalhados pelo país e marcas reconhecidas


internacionalmente, este modelo é desconfortável mas suportável — os seus adeptos já


estão habituados a pagar para os ver jogar. Para os clubes regionais com menor


capacidade de tração nacional e bases de adeptos mais circunscritas, as implicações são


mais profundas e menos discutidas publicamente.

O que significa não estar no sinal aberto


Estar no sinal aberto significava, durante décadas, estar acessível a qualquer pessoa com


uma televisão. Não havia filtro económico entre o adepto e o jogo. Os canais nacionais de


sinal aberto — RTP1, RTP2, SIC e TVI, entre outros — continuam hoje a chegar


gratuitamente a casa pela televisão digital terrestre, bastando o equipamento adequado; o


que mudou é que o futebol da Liga saiu deles. Um clube do Algarve ou da Madeira que


aparecia na televisão chegava a todo o país — incluindo às comunidades emigrantes, que


habitualmente sintonizavam os canais generalistas portugueses através de cabo


internacional ou satélite.

A subscrição introduziu um filtro. Não é que o jogo não exista — existe, está a ser


transmitido. Mas quem não tem Sport TV não o vê. E "não ter Sport TV" não é


necessariamente uma questão de desinteresse: pode ser uma questão de custo, de


indisponibilidade do serviço, ou simplesmente de não ter um pacote de televisão por cabo


activo.

Os dados mostram que o Farense e o Portimonense — os dois clubes algarvios nas ligas


profissionais, ambos na Liga Portugal 2 — tiveram nove jogos no período: oito na Sport TV


e um sem canal identificado na grelha. O Marítimo e o Nacional, da Madeira, tiveram sete


jogos na Liga Portugal, todos na Sport TV. O Vitória de Guimarães, com sete jogos, ficou


também integralmente nesse canal. Em nenhum dos jogos com canal identificado houve


transmissão em sinal aberto.

A visibilidade que os direitos televisivos compram — e a que não compram


Há uma diferença entre o alcance potencial de uma transmissão em sinal aberto e o


alcance real de uma transmissão em canal de subscrição. No primeiro caso, qualquer


pessoa com televisão pode ligar e ver. No segundo, só quem pagou.

Esta distinção importa especialmente para os clubes com menores recursos mediáticos. Um


clube da segunda ou terceira cidade do país tem habitualmente uma base de adeptos mais


localizada. A televisão era o mecanismo de expansão dessa base para além da região.


Com a migração para o sinal fechado, esse mecanismo perdeu eficácia — não


desapareceu, mas passou a depender de quem já está envolvido o suficiente para pagar a


subscrição.

Há um paradoxo nisto. Os clubes que mais beneficiariam de exposição televisiva gratuita —


os mais pequenos, os mais regionais, os recém-promovidos — são exactamente aqueles


que menos influência têm nas negociações colectivas dos direitos televisivos. Essas


negociações tendem a ser dominadas pelos interesses dos clubes maiores, que têm maior


poder de barganha e maior peso comercial junto dos operadores.

O papel da imprensa regional neste contexto


Para os jornais regionais que acompanham os clubes da sua área, a ausência de sinal


aberto tem uma consequência editorial concreta: o leitor comum deixou de ter acesso


gratuito ao jogo sobre o qual está a ler. A cobertura jornalística continua — os resultados, as


análises, as entrevistas existem independentemente de o jogo ter ou não passado na


televisão aberta. Em Ovar, por exemplo, é na imprensa local que se segue a AD Ovarense,


que tenta recuperar o protagonismo histórico no futebol português. Mas o contexto de


acompanhamento mudou.

Um adepto que não tenha Sport TV e que leia uma análise do jogo do Marítimo no jornal


regional está a consumir informação sobre algo que não pôde ver. Em gerações anteriores,


esse mesmo adepto teria visto o jogo na RTP ou na SIC e estaria a ler o jornal como


complemento. Hoje, o jornal pode ser o único contacto que teve com o jogo.


Esse é o ecossistema em que os meios regionais de desporto trabalham actualmente. O


novo jornal desportivo que registou estas grelhas mapeou exactamente esse padrão: onde


passam os jogos, em que canais, com que grau de acessibilidade — e os resultados


confirmam que o jornalismo regional de desporto opera hoje num contexto em que o leitor,


muitas vezes, não viu o jogo sobre o qual está a ler.

O que os dados não conseguem medir


Os dados de transmissão dizem onde o jogo passou, não quem o viu. Não há forma de


saber, a partir da grelha, quantos adeptos do Académico de Viseu — clube que teve cinco


jogos no período, quatro na Sport TV e um na Benfica TV — assistiram efectivamente às


transmissões. A cobertura existe; o impacto real é outra pergunta.


A mesma limitação aplica-se à leitura inversa: não se pode concluir que a ausência de sinal


aberto reduziu as audiências dos jogos regionais, porque as audiências não foram medidas


neste estudo. O que foi medido é a grelha — um instrumento de acesso, não de consumo.


E a grelha diz que, no período em análise, o acesso foi integralmente pago.

O que se sabe é que o acesso à Liga Portugal no início desta época foi integralmente


condicionado por subscrição paga. E que os clubes regionais, que dependem de


transmissão televisiva para chegar a adeptos fora da sua área imediata, estão a operar num


modelo que não foi desenhado a pensar neles — mas que é, por agora, o único que existe.


Perceber esse modelo é o primeiro passo para discutir se deve ser diferente. https://www.ovarnews.pt/o-fim-do-jogo-em-sinal-aberto-e-o-que-isso-faz-aos-clubes-pequenos/

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