sexta-feira, setembro 25, 2026



O Irmão de Santa Camarão (III) - Por Edgar Branco
Na manhã seguinte, o problema manteve-se e Santo Lagosta continuava sem voz. Aflito, procurou


médicos, especialistas, curandeiros. Mas todos lhe deram a mesma resposta.

— Infelizmente, não há nada que possamos fazer.

Sem explicações. Sem soluções. Apenas silêncio.


As semanas passaram. A vida seguiu. Mas Santo Lagosta não desistiu. Decidiu regressar ao


trabalho no Café Lampião, onde servia mesas antes do estranho encontro com a truta. Se já não


podia falar, adaptava-se.

Trazia agora um cartão pendurado ao pescoço, explicando a sua condição: - Não posso falar, mas


posso ouvir. Faça o seu pedido por escrito.

Com um bloco de notas e uma caneta sempre à mão, continuou a trabalhar.


Nunca parou.

Num dia como tantos outros, enquanto servia as mesas da pequena esplanada do café, ouviu a


conversa de duas jovens clientes.

A mais angustiada apoiava o rosto entre as mãos.

— Amiga… eu já não sei o que fazer. Já não sei o que dizer. Tento de tudo para que ele repare em


mim, mas… nada. Será que vou ficar solteira para sempre?

A outra, mais optimista, suspirou e sorriu.

— Oh querida… dá tempo. Ele há de ver o que tem à frente.

Santo Lagosta escutou. E, sem que soubesse bem porquê, algo dentro dele se acendeu.


Desde aquela noite junto ao cais, não tocava guitarra. Tinha deixado a música para trás, ressentido


pelo preço que pagara ao desejo da truta. Mas agora, sentia algo diferente.


Uma necessidade.

Pegou na guitarra, hesitante. As cordas estavam frias, esquecidas, mas os seus dedos


reconheceram-nas como velhos amigos.

E quando tocou a primeira nota…


O som foi puro. Perfeito.


Como nunca antes.


As conversas ao redor cessaram. Os clientes do café olharam na sua direção. A melodia era bela,


envolvente. Santo Lagosta nunca tinha tocado assim.

Seria este o desejo da truta?

O pensamento invadiu-lhe a mente. E então… A vontade de cantar surgiu. Um arrepio percorreu-lhe o corpo.

Sem saber como ou porquê, Lagosta sentiu as palavras formarem-se dentro de si.


E quando abriu a boca, a voz fluiu como música.

🎶 Menina, menina, de rosto perfeito,


🎶 Teu pesar escuto, teu lamento aceito.


🎶 Torna o pranto em sorriso, pois nesta canção,


🎶 Tens a resposta guardada no coração.


🎶 O teu amor, por ti, o coração bate,


🎶 Só tens de segurá-lo com força e com arte.


🎶 Pois a vontade é forte, mas fraca é a carne,


🎶 E um futuro te vejo, num laço que arde.


🎶 Casados, felizes, num doce enlace,


🎶 Mas age depressa... não deixes que passe!


🎶 Vai, menina, deixa o medo pra trás,


🎶 Dá-lhe um beijo... e tudo se faz.


🎶 Olha... ali vem ele daquele canto!

Todos pararam para ouvir.


A música pairou no ar como um feitiço.


Os olhos da jovem encheram-se de lágrimas.


Ela olhou para o lado... e ali estava ele. O homem pelo qual suspirava.


Sem pensar, correu até ele e, com o coração transbordando de coragem, beijou-o.


O jovem ficou atónito. Mas logo sorriu.

— Casa comigo? — perguntou ele, de repente, segurando-lhe as mãos.


A jovem engasgou-se na emoção. E entre lágrimas e risos, disse que sim.


Santo Lagosta, ainda de guitarra na mão, observou a cena com um misto de surpresa e


compreensão.

Agora sabia o que o destino lhe tinha dado.


Agora entendia o preço que pagara.


O seu dom não era apenas a música.


Era a visão. Através do canto, via os destinos das pessoas.


(Continua)

Edgar Branco https://www.ovarnews.pt/o-irmao-de-santa-camarao-iii-por-edgar-branco/

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