terça-feira, março 10, 2026



Os Ovos Moles de Ovar (V) - Por Edgar Branco
A multidão, embora sempre respeitosa, não conseguia conter o burburinho crescente. O ar estava


carregado de expectativa, de murmúrios ansiosos, de olhares atentos fixos no palco onde, a qualquer


momento, seria anunciado o destino dos concorrentes.

Perto da mesa de exposição, onde os doces repousavam como pequenas joias, Guida recebeu a


visita do seu pai. O duque de Ovar aproximou-se, pegou num dos delicados ovos moles e, com um


sorriso largo, provou-o lentamente, como se quisesse saborear cada nuance da criação da filha.


Depois, pousou a mão sobre o ombro de Guida e declarou com solenidade:


— Guidinha, isto… isto é um hino! Uma homenagem! Uma alegria para nós todos!


Independentemente do que venha a acontecer, minha filha, tu já venceste.


O coração de Guida aqueceu-se com aquelas palavras. Tinha conquistado o respeito do seu pai, o


reconhecimento que tanto ansiava.


Mas não era suficiente.


Ela queria mais. Queria gravar o seu nome na história da sua terra.


— Paizinho, eu quero isto mais do que tudo! Quero que este nome, os Ovos Moles, fique colado à


nossa gente, que seja parte de nós. Quero que sintam que eu os representei, que na minha humilde


amostra de talento, os elevei também. Quero que me aceitem como uma deles… com os Ovos Moles


de Ovar!


O duque olhou para a filha, o orgulho nos olhos, mas nada mais disse. Havia coisas que apenas o


destino poderia decidir.

O momento aproximava-se.


Os juízes tinham deliberado. O destino de todos os concorrentes estava prestes a ser revelado. O


arauto subiu ao palco, o rolo de pergaminho nas mãos, e, com voz firme, anunciou:


— Senhores e senhoras! O momento que todos aguardávamos chegou! É hora de conhecermos os


grandes vencedores do certame!


A multidão sussurrou entre si. Guida respirou fundo.


O terceiro lugar foi anunciado.


— Em terceiro lugar… Josefina Valadares, com o seu sublime Mil Fontes de Cremes Maria!


Os aplausos ecoaram pelo auditório.


Guida manteve a respiração presa no peito. Estava feliz por não ser terceira… mas e se não


estivesse sequer entre os vencedores?


O segundo lugar.


— Em segundo lugar… Rodrigo Manciso, com a requintada iguaria Valentes de Veados!


Mais aplausos. Rodrigo sorriu e agradeceu.


Os Vareiros


Guida sentiu o sangue gelar nas veias.


— Será possível? Terá sido o meu nome esquecido? Mas a esperança ainda pulsava forte. Restava


o primeiro lugar.


O arauto limpou a garganta. A multidão silenciou-se.


— E o primeiro lugar… vai para…


Um momento de suspense.


— Margarida…


Guida sentiu o coração disparar no peito.


Mas algo estava errado. O arauto olhava-a com uma expressão confusa. Franziu o sobrolho e


perguntou, elevando a voz:


— Menina, qual é o vosso apelido?


O salão inteiro voltou-se para Guida. Ela, de rosto corado, engoliu em seco e respondeu:


— Margarida… Margarida de Oveiro.


O arauto assentiu.


— Muito bem, obrigado, menina. E o primeiro prémio vai, sem grande surpresa, para…


Os juízes levantaram-se. O público inclinou-se para a frente, na expectativa final.


— Margarida dos Ovos Moles de Aveiro!


O quê?! Guida sentiu o chão desaparecer sob os seus pés.


— Aveiro?! — sussurrou, como se tivesse sido atingida por um golpe. A sua voz tentou elevar-se


sobre o rugido do público.


— Não! Não é Aveiro! É Oveiro! Os Ovos Moles de Ovar!


Mas ninguém a ouviu.


O juiz mais velho, com a audição já enfraquecida pelos anos, não captara bem as palavras da jovem.


E agora, a multidão gritava.


— Ovos Moles de Aveiro! Ovos Moles de Aveiro! Ovos Moles de Aveiro!


O eco repetia-se, crescendo como uma onda imparável, um rugido que varria a sala e esmagava


tudo o que Guida tentava dizer.


O seu esforço. O seu trabalho. O seu nome.


Perdido no burburinho de uma multidão que a congratulava… com um título errado.

Os Vareiros

Os Ovos Moles de Aveiro, para sempre, despojando Guida do seu maior feito.


O seu doce, o seu nome e a sua vitória, tomados por outra terra, outra terra que não a sua. E Guida,


apesar da glória alcançada, sentiu apenas o amargo de uma vitória que nunca lhe pertenceu.

E assim, diante dos olhos incrédulos da jovem criadora, o seu sonho, para sempre roubado pelo erro


de um nome mal-entendido.


Mas os Vareiros… Os Vareiros sabem a verdade. Os Ovos Moles são de Ovar.

 

 

 

 

Edgar Branco https://www.ovarnews.pt/os-ovos-moles-de-ovar-v-por-edgar-branco/

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