Uma equipa de investigadores descobriu que um antidiabético e um composto vegetal podem aumentar a eficácia dos tratamentos de reprodução assistida e reduzir o risco de aborto, ao atuarem diretamente sobre alterações do endométrio.
A investigação, distinguida com o prémio President’s Plenary, foi apresentada na 73.ª reunião científica da Society for Reproductive Investigation, que está a decorrer em Porto Rico até ao próximo sábado.
O trabalho, liderado pela Fundação IVI e pelo IVI RMA Global, aponta para uma nova abordagem no tratamento da infertilidade de causa até agora desconhecida, centrada no papel do endométrio, um fator determinante para o sucesso da implantação embrionária.
Com base na análise do perfil genético do endométrio de 161 mulheres, os investigadores identificaram quatro padrões distintos. Dois deles estavam associados a elevadas taxas de gravidez, enquanto os restantes revelaram maior risco de aborto, mesmo quando eram transferidos embriões de elevada qualidade. Estes resultados reforçam a importância do fator endometrial, para além da seleção embrionária, na explicação de falhas de implantação.
Perante a ausência de tratamentos específicos, a equipa recorreu à inteligência artificial e a modelos de farmacologia de sistemas para identificar fármacos já aprovados com potencial para corrigir estas alterações. Os investigadores descobriram que substâncias como a genisteína e a pioglitazona melhoraram a função das células endometriais durante a decidualização, um processo essencial para a implantação do embrião e evolução da gravidez.
“Em média, são necessárias entre três a cinco tentativas para atingir uma probabilidade acumulada de gravidez superior a 95–98% com embriões de boa qualidade, sendo que, na primeira tentativa, essa probabilidade ronda os 65%. A identificação prévia destes perfis permite atuar antes da transferência embrionária e, potencialmente, melhorar estes resultados”, explica a Dra. Patricia Díaz Gimeno, investigadora principal do estudo.
A possibilidade de personalizar os protocolos de tratamento surge como uma das principais descobertas desta investigação. Ao permitir avaliar previamente o estado do endométrio, abre-se caminho à otimização do momento da transferência, o que reduz o número de embriões utilizados e aumenta a probabilidade de sucesso logo nas primeiras tentativas.
Ainda assim, os investigadores sublinham a necessidade de validação clínica. “Será necessário realizar ensaios clínicos para confirmar, com elevado nível de evidência, o impacto desta abordagem na prática clínica”, acrescenta a Dra. Patricia Díaz Gimeno.
Outro aspeto relevante prende-se com a potencial rapidez de aplicação. Uma vez que os dois fármacos já se encontram disponíveis e têm perfis de segurança bem estabelecidos, a sua utilização nesta nova indicação poderá ser mais célere do que no caso de novas moléculas.
Segundo a investigadora, esta descoberta resulta de uma abordagem inovadora baseada na análise massiva de dados e na integração de farmacologia de sistemas com técnicas de signature matching, desenvolvidas em colaboração com a Universidade UC San Francisco. E acrescenta que se trata de uma forma inédita de identificar e corrigir, a nível molecular, causas de infertilidade até agora não reconhecidas.
Para o Dr. Samuel Ribeiro, especialista em ginecologia e reprodução assistida e diretor clínico do IVI Lisboa, os resultados representam um avanço notável na medicina reprodutiva. “Esta investigação abre novas possibilidades onde não havia respostas terapêuticas eficazes. É um exemplo claro de como a combinação de ciência de ponta e experiência clínica pode gerar soluções concretas para as mulheres que desejam ser mães”. O especialista sublinha ainda que, embora sejam necessários ensaios clínicos para confirmar os efeitos, o estudo já oferece um caminho promissor para personalizar os tratamentos e aumentar as taxas de sucesso.
A 73.ª reunião científica da Society for Reproductive Investigation (SRI), está a decorrer até dia 28 de março, em Porto Rico. É um encontro anual que junta habitualmente especialistas de todo o mundo para debater e apresentar os últimos avanços em investigações que ajudam a melhorar o cenário reprodutivo de mulheres e casais que precisam de reprodução assistida para realizar seu desejo de gerar uma nova vida.
Sobre o IVI – RMANJ
O IVI nasceu em Espanha, no ano de 1990, como a primeira instituição médica especializada integralmente em Reprodução Assistida. Desde então, já ajudou mais de 250.000 crianças a nascer, graças à aplicação das mais recentes tecnologias. No início de 2017, o IVI fundiu-se com a RMA, tornando-se o maior grupo de reprodução assistida do mundo. Atualmente, possui mais de 80 clínicas e 7 centros de investigação e é líder em medicina reprodutiva.
https://www.ovarnews.pt/cientistas-identificam-dois-farmacos-que-podem-reduzir-o-aborto-na-reproducao-assistida/
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