quarta-feira, março 18, 2026



Conselhos Gerais: Órgão de gestão atado de pés e mãos (IV) - Por José Lopes
Ao fim de quase trinta anos de existência dos conselhos gerais, que ao contrário dos


diretores, que têm duas associações representativas nacionais, o designado órgão de


gestão estratégica não conseguiu sair do isolamento a que se remeteu no seio de cada


agrupamento de escolas, não sendo conhecidas trocas de experiencias concelhias,


regionais ou nacionais, que permitam conhecer o verdadeiro papel deste órgão e a sua


capacidade de se assumir como um espaço privilegiado de debate entre os diferentes


corpos representados, mesmo considerando o espirito da lei de impedir que docentes e


não docentes constituam maioria, tornando ainda mais confrangedor o seu


funcionamento.

Recorrendo a um relatório produzido em março de 2001 no âmbito do Programa de


Avaliação Externa da Aplicação do Regime de Autonomia, Administração e Gestão de


Escolas e Agrupamentos de escolas (DL 115/A-98, de 4 de maio), pelo Centro de


Estudos da Escola, Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação, Universidade


de Lisboa, em que foi feita, “a caracterização do processo de mudança da estrutura


formal e dos órgãos de gestão das escolas básicas e secundárias, e da constituição de


agrupamentos no ensino básico, assim como a definição de um ponto da situação e de


um balanço crítico, na perspectiva dos responsáveis de topo pela gestão das escolas


(...)”. Tal como agora se poderia concluir, em sintese final, este trabalho afirmava


então, que, “De um modo geral, pode dizer-se que a iniciativa política contida nas


mudanças veiculadas pelo novo «Regime de Autonomia, Administração e Gestão» não


parece ter produzido um efeito mobilizador significativo entre os actores com


intervenção no contexto escolar, numa lógica de transformação da escola, e no sentido


de melhorar a qualidade do serviço público de educação, notando-se, nomeadamente,


algum distanciamento e desconfiança entre os docentes, manifesto desinteresse entre


os estudantes, e uma prudente reserva entre os autarcas, embora pareça ter dinamizado


a participação parental, pelo menos no que respeita à acção das respectivas estruturas


associativas”.

Um outro trabalho de análise das relações de poder da então Assembleia de Escola e


do Conselho Executivo, ”Os Poderes na Escola”, realizado em 2003 no Instituto de


Educação e Psicologia, Universidade do Minho. Ainda que baseando-se na fase inicial


do DL 115-A/98 de 4 de maio.

A realidade de hoje dos conselhos gerais, mesmo com todas as alterações legislativas


que procuraram corresponder a algumas das conclusões destes trabalhos de avaliação,


que na prática não trouxeram melhorias até aos dias de hoje, acaba por espelhar algumas


das fragilidades ali referidas, quando afirma que, “A Assembleia de Escola é um órgão que,


em termos legais, pode, eventualmente, situar-se acima do Conselho Executivo mas na


realidade o seu enquadramento na cadeia hierárquica da escola é difícil de realizar


porque é um órgão ambíguo, nem é de gestão nem de direcção, com competências ambíguas


e muito circunscritas a aspectos formais e burocráticos, as quais se afastam bastante


da definição de políticas educativas locais que contemplem a especificidade da comunidade que serve”.

O trabalho aqui referido incluiu entrevistas através de um guião direcionado a cada um


dos elementos representativos que integram os diferentes órgãos de gestão, sobre a


relação de poderes entre a assembleia de escola e o conselho executivo, na altura


regulamentados pelo DL 115-A/98. No entanto esta dúvida sobre a relação dos


poderes na escola, ainda que irónicamente tenha despertado alterações legislativas em


nome da necessidade de uma maior participação dos pais e encarregados de educação


na vida da escola, o que na prática não funcionou. Acabou a reforçar a figura do


diretor em nome também de lideranças fortes, deixando ao conselho geral, não a


gestão estratégica, mas a gestão secundária através do papel errelevante que se agrava


com a descaraterização das comunidades na própria evolução das redes escolares


centralizadas em mega agrupamentos.

José Lopes https://www.ovarnews.pt/conselhos-gerais-orgao-de-gestao-atado-de-pes-e-maos-iv-por-jose-lopes/

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