

Chega a primavera e, com ela, regressam os pólens em circulação e os sintomas que tantas pessoas conhecem bem: comichão no nariz e nos olhos, espirros, nariz entupido, tosse, sensação de pressão na face e, por vezes, cefaleia. Em quem já sofre de rinite alérgica ou asma, esta fase do ano pode significar agravamento claro da doença. A própria asma pode piorar com exposição a pólens, e a rinite alérgica mal controlada também aumenta o risco de rinossinusite. Em Portugal, é precisamente na primavera que a Rede Portuguesa de Aerobiologia disponibiliza de forma regular o boletim polínico com os níveis de pólen no ar.
Um erro frequente é recorrer a sprays nasais de venda livre que “desentopem” rapidamente o nariz. Esses sprays são, muitas vezes, descongestionantes vasoconstritores. Resultam no início, porque contraem os vasos da mucosa nasal e reduzem o edema, mas não devem ser usados durante vários dias seguidos. O uso excessivo pode provocar o efeito contrário: o nariz volta a inchar ainda mais quando o medicamento é suspenso. O nome correto deste problema é rinite medicamentosa. Em formulações com oxymetazolina, por exemplo, a recomendação é não ultrapassar 3 dias de utilização.
Quando há rinite alérgica, o tratamento de base costuma ser outro: o spray nasal com corticoide. Este não dá o alívio “instantâneo” de um vasoconstritor, mas trata a inflamação que está por trás dos sintomas e é uma das opções centrais no tratamento da rinite alérgica. As recomendações ARIA/EAACI 2024–2025 reforçam o papel dos corticoides intranasais e favorecem-nos em relação aos anti-histamínicos intranasais em várias situações. As lavagens nasais com soro fisiológico também podem ajudar a remover muco, pólen e outras partículas, melhorando os sintomas.
Mas há um cuidado essencial: as lavagens nasais devem ser feitas com soluções adequadas e com água estéril, destilada ou previamente fervida e arrefecida. Água do mar apanhada diretamente na praia, incluindo no Furadouro, não é estéril e não é recomendada para este fim. O mesmo vale para água da torneira não tratada para irrigação nasal.
Também nesta altura do ano surgem doentes com tosse, aperto no peito, cansaço a respirar ou pieira. Nalguns casos, isto não é “uma alergia qualquer”: pode ser asma. As recomendações GINA lembram que os sintomas típicos da asma incluem pieira, falta de ar, aperto torácico e tosse, variam ao longo do tempo e pioram muitas vezes à noite, ao acordar ou com exposição a alergénios como os pólens. O diagnóstico deve ser confirmado com avaliação clínica e prova objetiva de variabilidade do fluxo aéreo, sempre que possível.
E há outra mensagem importante para quem já sabe que tem asma: se piora sempre na época dos pólens, não deve confiar apenas na medicação “SOS”. A inflamação mantém-se enquanto o desencadeante continua presente. O tratamento com medicação contendo corticoide inalado reduz muito o risco de exacerbações, e o despertar noturno por asma é um sinal de mau controlo que exige reavaliação e, muitas vezes, intensificação do tratamento. O GINA refere ainda que, nos casos de asma alérgica puramente sazonal, pode ser necessário tratamento controlador com corticoide inalado durante a época polínica.
Em resumo: o pó amarelo das árvores que cobre a cidade pode ser, de facto, um verdadeiro irritante para quem tem alergias ou asma. Quanto mais cedo se começar a tratar de forma correta, menor a probabilidade de cair em crises de rinite, rinossinusite e asma. E tratar bem não é “desentupir” o nariz a qualquer preço; é controlar a inflamação, usar a medicação certa e procurar avaliação médica quando os sintomas descem do nariz para os brônquios
Eurico Silva, Médico de família na USF João Semana de Ovar https://www.ovarnews.pt/primavera-o-polen-voltou-e-o-nariz-os-olhos-e-os-bronquios-sentem-no-por-dr-eurico-silva/
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