terça-feira, abril 21, 2026

A decisão de municipalizar a gratuitidade do transporte público, ainda que politicamente


apelativa, enfraquece de uma limitação estrutural evidente pois ignora a natureza funcional


e integrada dos sistemas de mobilidade nas áreas metropolitanas. No caso específico da


Área Metropolitana do Porto, esta limitação torna-se particularmente visível, uma vez que a


rede de transportes operacionalizada, em larga medida, através do sistema Andante


constitui, de facto, um ecossistema intermunicipal, no qual as fronteiras administrativas são


economicamente irrelevantes.

Defender a gratuitidade circunscrita a um único município, ainda que central, corresponde a


uma leitura redutora da mobilidade contemporânea. Os movimentos pendulares entre


concelhos como Vila Nova de Gaia, Maia, Matosinhos, Santa Maria da Feira ou Gondomar


e o Porto demonstram uma realidade socioeconómica profundamente interligada, na qual


residência e local de trabalho, ou estudo, raramente coincidem no mesmo território


administrativo. Assim, ao tornar gratuitos os transportes apenas para os residentes de um


concelho, cria-se uma distorção distributiva que penaliza precisamente os segmentos


populacionais mais dependentes do sistema de transporte público, ou seja, os trabalhadores


e estudantes que vivem na periferia e se deslocam diariamente para o Porto.

Do ponto de vista da eficiência económica e da equidade territorial, a solução mais racional


consiste na extensão da gratuitidade a toda a Área Metropolitana. Tal abordagem reconhece


a natureza de bem público metropolitano dos transportes coletivos e alinha os incentivos


com os objetivos de política pública, nomeadamente a redução da utilização do transporte


individual e consequente descongestionamento dos acessos, a diminuição das emissões de


carbono e a melhoria da coesão social.

A fragmentação de políticas tarifárias num sistema tecnicamente integrado gera


ineficiências. Por um lado, compromete a simplicidade e a transparência do modelo de


utilização, introduzindo assimetrias que dificultam a adesão dos utilizadores. Por outro,


reduz o potencial de ganhos de escala que poderiam ser obtidos através de uma abordagem


coordenada. Num sistema como o Andante, concebido precisamente para facilitar a


interoperabilidade entre diferentes operadores e modos de transporte, a diferenciação


baseada no local de residência constitui uma incongruência conceptual.

É certo que subsistem constrangimentos financeiros, sobretudo nos municípios com menor


capacidade orçamental, contudo, este argumento, embora relevante, não invalida a


necessidade de uma solução sistémica, pelo contrário reforça a urgência de mecanismos de


financiamento intermunicipais, o que significa que a gratuitidade metropolitana não deve


ser entendida como um encargo isolado de cada autarquia, mas como um investimento


coletivo, passível de ser cofinanciado por instrumentos nacionais e europeus, à semelhança


de outras políticas de transição climática e coesão territorial.

Importa ainda considerar os efeitos macroeconómicos indiretos de uma medida desta


natureza. A redução dos custos de mobilidade aumenta o rendimento disponível das


famílias, particularmente das de menores rendimentos, e pode contribuir para uma maior


eficiência do mercado de trabalho, ao facilitar o ajustamento entre oferta e procura de


emprego à escala metropolitana. Simultaneamente, a diminuição do tráfego rodoviário


reduz externalidades negativas, como a poluição e o congestionamento, com benefícios


para a saúde pública e a produtividade.

Em termos de governação, coloca um desafio incontornável sobre a necessidade de reforçar


o papel das entidades metropolitanas enquanto níveis de decisão, até porque a mobilidade,


pela sua própria natureza, exige uma coordenação intermunicipal, pelo que a manutenção


de soluções fragmentadas acentua desigualdades e compromete a eficácia global do


sistema, bem como os objetivos inerentes ao mesmo.

Concluindo, a gratuitidade dos transportes públicos, para ser transformadora, não pode ficar


confinada a um único município. Numa área metropolitana funcionalmente integrada, como


a do Porto, a justiça distributiva, a eficiência económica e a coerência sistémica convergem


na conclusão de que os passes devem ser gratuitos à escala metropolitana e qualquer


solução que ignore esta realidade corre o risco de agravar assimetrias e de desperdiçar uma


oportunidade estratégica de reconfiguração do modelo de mobilidade urbana.

Diogo Fernandes Sousa


Escritor do Livro “Rumo da Nação: Reflexões sobre a Portugalidade” https://www.ovarnews.pt/escala-metropolitana-da-mobilidade-por-diogo-fernandes-sousa/

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