sábado, abril 11, 2026

 

A economia portuguesa permanece num regime de baixa produtividade, cuja persistência compromete a convergência com a União Europeia e limita estruturalmente a trajetória de crescimento de longo prazo. O indicador de referência, o Produto Interno Bruto por hora trabalhada, permite isolar a eficiência do fator trabalho, eliminando distorções associadas à intensidade laboral. Nesse plano, Portugal posiciona-se de forma desfavorável, registando cerca de 72% da média da União Europeia, o que o coloca entre os países menos eficientes.

Este défice não é conjuntural, mas uma fragilidade estrutural. Em 2025, apesar de um crescimento económico de 1,9%, superior à média europeia, a decomposição desse crescimento revela um padrão extensivo, ou seja, mais emprego e mais horas trabalhadas, em detrimento de ganhos de produtividade. Este fenómeno simboliza uma economia que cresce em quantidade, mas não em qualidade, perpetuando um modelo assente na intensificação do esforço laboral em vez da melhoria dos processos produtivos.

O contraste com as economias do Norte da Europa é particularmente elucidativo. Países como a Alemanha ou a Dinamarca combinam jornadas anuais mais curtas com níveis de produtividade substancialmente superiores. Este aparente paradoxo de trabalhar menos e produzir mais não constitui uma anomalia, mas sim a expressão de uma organização económica assente em capital tecnológico avançado, elevada qualificação dos recursos humanos e práticas de gestão eficientes. Pelo contrário, em Portugal, a persistência de uma cultura focada no momento atual revela uma conceção anacrónica do trabalho, onde o tempo de permanência substitui a avaliação de desempenho efetivo.

A explicação para este diferencial de produtividade assenta em múltiplos vetores interdependentes. Em primeiro lugar, o tecido empresarial português é dominado por microempresas. Esta fragmentação impede a exploração de economias de escala, limita o acesso a financiamento e restringe o investimento em investigação, desenvolvimento e digitalização. Em segundo lugar, subsiste um défice de qualificações ao nível dos trabalhadores, mas sobretudo ao nível da gestão. Os estudos sugerem que práticas de gestão menos profissionalizadas estão correlacionadas com menores níveis de eficiência organizacional.

Em terceiro lugar, a especialização produtiva do país concentra-se em setores de baixo valor acrescentado, como o turismo ou indústrias tradicionais. Embora relevantes para o emprego, estes setores apresentam limites à valorização do produto por hora trabalhada. Acresce um nível insuficiente de investimento em capital físico e digital, o que reduz a produtividade marginal do trabalho. Sem ferramentas tecnológicas adequadas, o aumento da produção depende do prolongamento do tempo de trabalho, gerando rendimentos decrescentes.

Este quadro é agravado por constrangimentos institucionais, nomeadamente a morosidade do sistema judicial, a complexidade burocrática e a instabilidade regulatória. Estes fatores aumentam os custos de contexto e desincentivam o investimento produtivo, contribuindo para um ambiente económico menos propício à inovação e à eficiência.

As implicações deste modelo são visíveis no mercado de trabalho. A baixa produtividade traduz-se em salários reduzidos, que, por sua vez, alimentam um ciclo de emigração de trabalhadores qualificados. Esta “fuga de cérebros” deteriora ainda mais o capital humano disponível, reforçando a baixa produtividade. Simultaneamente, os elevados impostos agravam a dissociação entre o custo do trabalho para as empresas e o rendimento líquido dos trabalhadores, distorcendo incentivos e limitando a competitividade.

As políticas públicas recentes, enquadradas pelo Plano de Recuperação e Resiliência, procuram inverter este padrão, promovendo a transição para uma economia intensiva em capital e conhecimento. Medidas como incentivos fiscais à valorização salarial, investimentos na digitalização e o reforço da ligação entre universidades e empresas são passos na direção correta. Contudo, a sua eficácia dependerá da capacidade de execução e da articulação com reformas estruturais mais profundas.

Neste contexto, instituições como a OCDE recomendam a simplificação do sistema fiscal, a redução de barreiras à entrada em setores protegidos, o reforço do ensino profissional e a promoção de maior flexibilidade no mercado de trabalho, como condições necessárias para desbloquear ganhos de produtividade sustentados. Acresce a necessidade de políticas que incentivem a concentração empresarial e a profissionalização da gestão, à semelhança de modelos adotados com sucesso noutros países europeus.

Concluindo, o problema da baixa produtividade não se resolve com mais horas de trabalho, mas com melhor eficiência do trabalho. Estudos demonstram que a criação de valor depende da qualidade dos fatores produtivos, da eficiência organizacional e do enquadramento institucional. Persistir num modelo baseado na intensificação do esforço laboral é economicamente insustentável. A janela de oportunidade aberta pelos fundos europeus é, por isso, decisiva porque ou o país concretiza as reformas necessárias para alterar o seu paradigma produtivo, ou arrisca-se a perpetuar um ciclo de crescimento anémico e divergência estrutural no contexto europeu.

Diogo Fernandes Sousa

Autor do Livro “Rumo da Nação: Reflexões sobre a Portugalidade”

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