

Carlos Silva, fundador e principal intérprete da companhia de teatro de marionetas Partículas Elementares, sediada em Ovar, estreou um novo espetáculo que marca o início de uma fase distinta no seu percurso artístico. Intitulada “A Travessia”, a criação assume-se como um exercício de minimalismo narrativo, sem recurso a palavras, onde a expressividade dos objetos, a manipulação e a componente sonora conduzem o público por uma experiência sensorial e simbólica.
Com mais de duas décadas de atividade, a companhia tem conciliado teatro, música e artes visuais, destacando-se por uma forte vertente pedagógica e por produções como “O Ninho”, “O Nabo Gigante” e “Mas… a Lua?!”. Entre estas, “O Ninho” revelou-se um dos projetos mais desafiantes, ao propor uma narrativa inteiramente construída através de linguagem visual, sem qualquer suporte verbal.
É precisamente essa linha estética que Carlos Silva decide aprofundar em “A Travessia”, agora integrada no seu novo projeto artístico, “Trama”. Inspirado num poema de Fernando Pessoa, o espetáculo assume-se como uma metáfora sobre as mudanças e os riscos inerentes ao percurso de vida. “Quis prestar uma homenagem às travessias que todos temos ao longo da vida. Simbolicamente, é isso”, explica o criador.
Apesar das inevitáveis comparações com “O Ninho”, cuja receção positiva eleva as expectativas, Carlos Silva afirma não se deixar condicionar. Ainda assim, reconhece que o novo espetáculo surge também como uma continuidade estética e emocional desse trabalho anterior. “Quis manter a mesma carga emocional. É uma linguagem exigente, tanto a nível técnico como narrativo, mas é a que me identifica”, refere.
Criado na sede da companhia, em Ovar, “A Travessia” nasceu sob um calendário exigente, definido pelo próprio artista, que intensificou o ritmo de trabalho nas semanas que antecederam a estreia no Festival INPróprio. No entanto, apesar de ter sido presenciado por uma sala completamente esgotada, o espetáculo está ainda em desenvolvimento. “É só o início. Vai evoluir, incorporar novos elementos e passar por várias apresentações até sentir que está completo”, sublinha.
O contacto com o público será, aliás, fundamental nesse processo. Carlos Silva admite a necessidade de testar a criação fora do seu espaço de conforto, recolhendo reações e ajustando a narrativa. Está já prevista a abertura de novas sessões ao público, numa fase mais amadurecida do espetáculo.
Paralelamente, as Partículas Elementares continuarão a apresentar os seus trabalhos anteriores, mas “A Travessia” assinala o arranque de um novo ciclo. Através do projeto “Trama”, o artista propõe-se explorar outras possibilidades dentro do universo da manipulação, podendo mesmo afastar-se das marionetas tradicionais. “Posso trabalhar apenas com objetos. Cada um tem uma carga própria e histórias inerentes. O desafio é dar-lhes vida”, explica.
Mais do que uma nova criação, “A Travessia” simboliza uma mudança de rumo. “Chega a uma altura em que temos de abandonar os caminhos que nos levam sempre ao mesmo sítio. Se não o fizermos, ficamos à margem de nós próprios”, conclui.
LV (texto e foto) https://www.ovarnews.pt/carlos-silva-estreia-a-travessia-e-inaugura-novo-ciclo-criativo/
Sem comentários:
Enviar um comentário