

O Carnaval é uma espécie de “vitamina da alegria”: concentrada, barulhenta, libertadora. Durante alguns dias, desligamos o modo automático, rimos mais, dançamos, convivemos, e o corpo agradece. O problema é que a folia passa — e a vida, com as suas contas, pressas e incertezas, fica.
Escrevo isto em fevereiro de 2026 depois de olhar para a carga de doença na USF João Semana. Os números não são neutros: temos mais de 4 200 pessoas com registo de ansiedade e/ou depressão. Antes da pandemia COVID-19 eram menos de 3 000. Hoje estamos perto de um em cada quatro utentes com estes diagnósticos. Isto é grave. E não é só cá: a Organização Mundial da Saúde descreveu, logo no primeiro ano da pandemia, um aumento global de 25% na prevalência de ansiedade e depressão.
Cuidar da saúde mental não é “frescura”, nem “falta de vontade”. Faz-se em casa, na escola, no trabalho, nas associações, no café do bairro. Faz-se quando deixamos de ridicularizar quem “anda em baixo”, quando paramos de usar “maluquinho” como adjetivo, quando aprendemos a reconhecer sinais de alarme — e quando pedimos ajuda sem vergonha. A doença mental não escolhe estatuto, idade ou profissão. E, sendo honestos, quase todos nós vamos atravessar períodos agudos ou crônicos de ansiedade ou depressão ao longo da vida.
O que fazer depois do Carnaval? Proponho uma “vitamina da alegria 2.0”: doses pequenas, diárias, mas consistentes.
Sono com prioridade (horário regular e ecrãs fora da cama).
Movimento todos os dias (não precisa de ginásio; precisa de regularidade).
Relações reais (duas conversas por semana, cara a cara, sem telemóvel em cima da mesa).
Limites à informação e às redes (se o mundo todo entra pela cabeça, a cabeça rebenta).
Natureza e luz do dia (20 minutos contam).
Um ato de utilidade (voluntariado, ajudar um vizinho, participar numa associação).
Pedir ajuda cedo (antes de “já não aguentar”).
E aqui entra um “KIT de sobrevivência” simples e gratuito: o Kit Básico de Saúde Mental, da ManifestaMente. É um mini-curso online de cerca de 90 minutos, gratuito, que explica o essencial — o que é saúde mental, sinais de preocupação, recursos de ajuda e como apoiar alguém. No fim há certificado e materiais extra.
A minha sugestão é pragmática: faça o Kit e partilhe-o. Se é dirigente de uma associação, proponha uma sessão de grupo. Se trabalha numa escola, leve-o para uma reunião de docentes ou de pais. Se lidera uma equipa, normalize a conversa e crie “pontos de escuta” (10 minutos semanais em que se pergunta, sem julgamento: “como estás, de verdade?”). Literacia em saúde mental é prevenção.
Se estiver em sofrimento emocional intenso, ou com pensamentos de autoagressão, peça ajuda imediata: a Linha SNS 24 tem aconselhamento psicológico pelo 808 24 24 24 (opção 4) e existe também a linha 1411 de prevenção do suicídio e apoio psicológico. Em emergência, ligue 112.
Depois da vitamina da Alegria, não espere pela próxima festa para se sentir vivo. A vitamina para o resto do ano chama-se saúde mental e toma-se em comunidade.
Eurico Silva, Médico de Família USF João Semana
https://www.ovarnews.pt/depois-da-vitamina-da-alegria-qual-a-vitamina-que-vai-tomar-para-o-resto-do-ano/
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