segunda-feira, fevereiro 02, 2026



Neste Carnaval, não vou brincar às ISTs - Por Dr. Eurico Silva
O Carnaval é, para muita gente, um tempo de festa, maior liberdade e menos “travões”. E é precisamente por isso que, como médico de família, tenho detetado mais infeções sexualmente transmissíveis (IST) associadas a períodos em que há mais impulsividade, menos controlo e, muitas vezes, sexo sem preservativo.

Há uma ideia errada que continua a circular: “IST é basicamente HIV”. Não é. O HIV é uma delas, importante, mas está longe de ser a única. E a realidade é mais dura do que parece: muitas IST podem não dar sintomas no início. A pessoa sente-se “normal”, segue a vida, mantém relações… e a transmissão continua.

Neste Carnaval, a mensagem é simples e direta: sexo seguro é sexo com preservativo.


IST: o problema real não é só “apanhar”


O risco não é apenas o desconforto do momento. É o que pode ficar para depois: complicações, infertilidade, dor crónica, infeções persistentes, e até problemas neurológicos e cardiovasculares em casos específicos.

E há ainda um fator que alimenta o problema: a ausência de sintomas nas fases iniciais. Muitas pessoas só descobrem quando surgem complicações — ou quando alguém com quem estiveram é diagnosticado.


Preservativo: o básico que muita gente ignora


O preservativo masculino continua a ser a ferramenta mais eficaz e acessível para reduzir a transmissão de IST em:

- sexo homem/mulher


- sexo homem/homem

Não é “moralismo”. É prevenção. É saúde pública. E é responsabilidade individual.


Três IST frequentes e perigosas: clamídia, gonorreia e sífilis - mas há mais!!


1) Clamídia: silenciosa, mas com impacto a sério


A clamídia é perita em passar despercebida, sobretudo nas mulheres. E isso é perigoso porque pode evoluir sem alarme.

Perigos no momento

- ardor ao urinar


- corrimento anormal (vaginal ou uretral)


- dor pélvica ou dor testicular


- sangramento fora do período menstrual (em algumas situações)

Perigos no futuro

- doença inflamatória pélvica


- infertilidade


- dor pélvica crónica


- maior risco de complicações na gravidez, se não tratada

2) Gonorreia: pode escalar depressa e resistir a antibióticos


A gonorreia pode dar sintomas mais “barulhentos”, mas nem sempre. E há um problema adicional: há estirpes com resistência a antibióticos, o que torna o controlo mais difícil.

Perigos no momento

- corrimento purulento (amarelado/esverdeado)


- dor ou ardor ao urinar


- dor testicular


- dor pélvica


- infeção retal (dor, secreção, sangue) ou faríngea (muitas vezes sem sintomas)

Perigos no futuro

- infertilidade (homens e mulheres)


- doença inflamatória pélvica


- infeção disseminada (raro, mas grave), com dores articulares e lesões cutâneas

3) Sífilis: “imita” outras doenças e pode ser devastadora


A sífilis pode começar com um sinal discreto e evoluir, anos depois, para doença grave se não for diagnosticada e tratada.

Perigos no momento

- ferida única, indolor, que pode desaparecer sozinha (e enganar)


- erupção cutânea, muitas vezes nas palmas das mãos e plantas dos pés


- gânglios aumentados


- febre, mal-estar

Perigos no futuro

- lesões neurológicas (problemas cognitivos, equilíbrio, visão/audição)


- complicações cardiovasculares


- transmissão na gravidez com consequências graves para o bebé

Sinais de alerta: não ignore


Procure avaliação se tiver:

- corrimento anormal (uretral, vaginal, retal)


- ardor ao urinar


- dor testicular ou dor pélvica


- feridas/úlceras nos genitais, boca ou região anal (mesmo indolores)


- verrugas genitais


- sangramento fora do habitual


- erupções cutâneas sem explicação, sobretudo se surgirem após relações desprotegidas


- dor/hemorragia retal após sexo anal

O que fazer — sem dramas e sem desculpas

- Use preservativo do início ao fim, em todas as relações com parceiros ocasionais.


- Se houve “deslize”: não espere pelos sintomas. Marque consulta e discuta rastreio.


- Se houver diagnóstico: tratar e avisar parceiros é parte do tratamento. Não é opcional.

Carnaval é festa. IST não é brincadeira.


A liberdade do Carnaval não devia vir com uma fatura de saúde semanas ou meses depois. A prevenção aqui é simples, barata e eficaz.

Neste Carnaval, não brinque às ISTs. Brinque ao Carnaval — com preservativo.

 

 

 

 

 

Eurico Silva . USF João Semana de Ovar https://www.ovarnews.pt/neste-carnaval-nao-vou-brincar-as-ists-por-dr-eurico-silva/

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