sexta-feira, abril 24, 2026
O 52.º aniversário do Revolução dos Cravos não é apenas uma efeméride inscrita no calendário nacional, é um convite à memória e, sobretudo, à responsabilidade. Celebrar o 25 de Abril é recordar o momento em que um país inteiro recuperou a sua voz, mas é também reconhecer que a democracia não é um dado adquirido. É uma construção contínua, exigente e, por vezes, frágil.
Passaram mais de cinco décadas desde que as ruas se encheram de esperança e de cravos vermelhos. Para muitos, essa realidade parece distante, quase simbólica. No entanto, os valores que emergiram naquele dia, liberdade, justiça e igualdade, continuam a ser pilares essenciais da nossa vida coletiva. O problema é que aquilo que se torna habitual corre o risco de ser desvalorizado. A democracia, precisamente por estar presente no nosso quotidiano, pode ser esquecida na sua dimensão mais profunda.
Hoje, vivemos num contexto global marcado por incertezas, desinformação e polarização. Em várias partes do mundo, assistimos ao crescimento de discursos que colocam em causa direitos fundamentais, que banalizam a intolerância e que testam os limites das instituições democráticas. Portugal não está imune a estas dinâmicas. A liberdade conquistada em 1974 exige vigilância constante, porque há sempre forças, visíveis ou subtis, que procuram enfraquecê-la.
Defender a democracia não significa apenas votar de quatro em quatro anos. Significa participar ativamente na sociedade, questionar, informar-se e respeitar o outro, mesmo na diferença. Significa também proteger a liberdade de imprensa, valorizar a educação e combater a desinformação. Uma democracia saudável depende de cidadãos críticos e envolvidos, não de espectadores passivos.
Há ainda um outro desafio que consiste em garantir que a democracia responde às expectativas das pessoas. Quando persistem desigualdades, quando o acesso a oportunidades não é equitativo, ou quando as instituições parecem distantes, abre-se espaço para o desencanto. E é nesse terreno que crescem soluções simplistas e discursos populistas. Defender o espírito de Abril implica, por isso, lutar por uma democracia mais inclusiva, mais justa e mais próxima dos cidadãos.
O 25 de Abril não pertence apenas ao passado, é uma tarefa do presente e do futuro. Cabe às novas gerações compreender que a liberdade não nasceu com elas, mas foi conquistada com coragem e sacrifício. E cabe-nos a todos nós garantir que essa conquista não se perde por indiferença ou negligência.
Celebrar 52 anos de democracia é, portanto, mais do que uma comemoração, é reafirmar um compromisso. Um compromisso com os valores que nos definem enquanto sociedade e com a ideia de que a liberdade, para continuar viva, precisa de ser cuidada todos os dias. Porque a democracia não se herda, constrói-se, defende-se e renova-se constantemente.
Fernando Camelo de Almeida
https://www.ovarnews.pt/52-anos-depois-a-democracia-nao-e-garantida-por-fernando-camelo-de-almeida/
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