

Na vida existem acontecimentos que analisados da perspetiva de atos isolados passam da Memória para o Esquecimento. Porém – contemplados no contexto de uma Histórica Sequência contam as mais singulares e fascinantes Histórias da Humanidade. Como História da Revolução dos Cravos Encarnados.
Na noite de 24 para 25 de Abril de 1974 Portugal viveu o auge de uma sequência de atos de coragem, reconhecimento e esperança.
O Cravo é um enigma silencioso. Símbolo de sofrimento de Jesus Cristo. Quis a vida ou o destino que fosse a Flor da Revolução? O sofrimento da ditadura, a resistência, a esperança de um melhor amanhã e por fim a fé ou convicção dos heróis que na noite de 24 para 25 de Abril arriscaram suas vidas para salvar Portugal da ditadura – um leque de facetas reunidas no Cravo. Não esquecendo todos que lutaram e construíram o caminho até à decisiva noite. Os militares desconheciam o final da “Operação Fim-Regime” – mas fé, esperança, coragem e saudade não os deixaram recuar. Acreditaram que o Relógio da Vida estava a bater a hora certa.
Como tudo começou? Difícil de analisar, porque a ditadura conheceu muita resistência. A 9 de setembro de 1973, em Viana do Alentejo, Alcáçovas, reuniu-se um Grupo de 136 oficiais. Foi no Monte do Sobral que nasceu o “Movimento dos Capitães”. Mais tarde batizado também com o nome “Movimento das Forças Armadas” (MFA). Reunião clandestina e de alto risco. Conspiração apresentada como confraternização, que o Alentejo guardou como um valioso Tesouro da Liberdade. Tesouro, que no passado sempre escreveu História. Na Coluna do célebre Capitão Salgueira Maia seguia também um neto do Nobre Cônsul Aristides de Sousa Mendes. Quando a Coluna parou ao sinal vermelho, a coragem, que outrora influenciou o Cônsul de Bordéus, decidiu pronunciar as seguintes palavras, que ficaram para sempre na memória: “... o jipe trava de repente e dou comigo parado num sinal vermelho do cruzamento da Cidade Universitária. .... Achei que era demais parar a Revolução ao sinal vermelho ...”(Capitão Fernando José Salgueiro Maia). Diplomacia e Militares – uma frente, que a ditadura não conseguiu vencer. Não foi fácil. Na Noite de São Silvestre 1961/62 o país conheceu o golpe na Pax Júlia, Beja. Falhou. – Mas uma Tocha com as Palavras do Capitão João Varela Gomes se acendeu: “Que outros triunfem, onde nós fomos vencidos.” Tocha, que anos mais tarde, seguiu para as Caldas da Rainha: 16 de Março de 1974. Infelizmente – mais uma vez – não conheceu Vitória. “… perdeu-se uma batalha, mas não se perdeu a guerra.” (Jornalista Eugénio Alves). O pequenino Cravo que veio de Tavira para Lisboa, e sem saber, escreveu História Lusitana, modestamente porque um restaurante não abriu e a “Florista da Revolução” não estava em poder de um cigarro, que um soldado solicitou. Ofereceu um Cravo, que transformou Espingardas em Cravos Encarnados e deu o seu Nome não à guerra, mas sim à Revolução. Talvez com a bênção de Cristo Rei, que “protegeu” a Artilharia de Vendas Novas: Junto ao Monumento Nacional contra a Fragata Gago Coutinho. A Artilharia defendia a Ordem de Proteção da Coluna Militar, que se encontrava no Terreiro do Paço. Uma coluna entre duas senhas musicais, “E depois do Adeus” / “Grândola Vila Morena” e corações por trás dos estores: “(…) não subi o estore, espreitei pelos buraquinhos para ver a avenida.” (Natércia Maia). Ansiedade e esperança entrelaçadas por intermédio de preces. No fim do dia Cravos a enfeitar espingardas. Divina Flor que ficou como símbolo do 25 de Abril e o mundo “batizou” Portugal como país da Revolução dos Cravos. Uma Nova Era começou. Um princípio que realçou a Saudade de construir novos Caminhos ou encontrar “Novos Mundos”.
Somente um pequeno cintilar de destino, coincidências e poesia de História, que descreve como na escuridão do desespero de uma impiedosa ditadura floriu um Cravo da coragem, fé e esperança. Para sempre recordado na Memória da Humanidade.
Por trás dos Estores Coração a Bater
Soa quase como o título de um filme. Porém - destino, coincidências e poesia da História decidem escrever nas Páginas do Livro da Vida realidades, que parecem contos passados para o papel com canetas penas da fantasia. No entanto o mundo revela, que o poderoso bater do coração consegue transformar modestas decisões em heroicas convicções, a fim de alterarem o porvir.
Por trás dos estores coração esperava.
Para relógio e rádio olhava.
Olhei para a janela.
A ditadura de sentinela.
Palavras do discurso pronunciadas.
Duas senhas foram lançadas.
Por trás dos estores o saber do coração:
“Acabar com isto!” – caminho da salvação.
Oprimido o pensar.
Sem asas para voar.
Chaimite e espingarda.
Orgulho no poder da farda.
Por trás dos estores o bater do coração.
Coluna Militar – na escuridão.
Um Segredo bem guardado.
Estava a ser revelado.
Por trás dos estores contemplou.
Em silêncio guardou.
Por trás dos estores o coração a ver.
Como a consciência cumpria seu dever.
Beja e Caldas da Rainha:
“A Tocha da Coragem caminha.”
A Coluna a Lisboa chegou.
Ao sinalo vermelho ainda parou.
Por trás dos estores o coração batia.
Em Lisboa – perante fogo – desobediência regia.
A coragem decidiu não recuar.
“Operação Fim-Regime” continuar.
O MFA o Alentejo não revelou.
O encontro ao inimigo não contou.
Por trás dos estores reza o coração:
“Que a noite ofereça gloriosa recordação.”
Lenço Branco perante a ditadura.
Ordem de fogo enfrenta bravura.
Objetivo sempre a vitória –
Com dignidade e glória.
Por trás dos estores coração sofria.
No fim do dia tristes memórias temia.
Fragata Gago Coutinho – para guerra preparada.
Junto ao Cristo Rei – Artilharia a paz guardava.
Difíceis decisões.
Perante fogo e canhões.
Por trás dos estores coração sabia:
Uma decisão errada – a revolução caia.
Acordou de madrugada.
Hesitou – trovoada?
A esperança como fénix renasceu.
Lentamente a noite amanheceu.
Por trás dos estores coração cantou.
Escuridão do Estado Novo não ganhou.
Com o amanhecer a certeza chegou:
Confiante coração – os estores levantou.
A Ditadura não encontrou.
Com novo rumo sonhou.
Ao longo do dia a mensagem.
Gloriosa a coragem.
Sem estores coração a bater.
O passado jamais esquecer.
No dia 25 de Abril de 1974 aconteceu.
A Revolução dos Cravos nasceu.
Recordando os estores – coração a falar:
Cravo Encarnado – Seu Fado – na História – para sempre ficar.
Contra o esquecimento lutar.
Da coragem do Capitão sem Medo contar.
Capitães de Abril –
À Nação consagraram vitória.
Para Portugal e o mundo – escreveram História!
Cavaleiros, Heróis e Guardiães –
Espingarda com Cravo,
para sempre Nossos Capitães.
25 de Abril de 1974, Revolução dos Cravos
Isalita Pereira é Historiadora (Finalista da Universidade de Frankfurt) e autora da "Coluna dos Cravos Encarnados - Ramo da Liberdade", projeto que superou todas as expetativas e reuniu até ao presente momento à volta de 70 Cravos Jornalísticos. O OvarNews associa-se com a esta iniciativa com este cravo plantado.
https://www.ovarnews.pt/na-escuridao-a-tocha-do-cravo-que-escreveu-historia-isalita-pereira/
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