quinta-feira, abril 23, 2026



Máscara Sem Elásticos - Por Edgar Branco
Artur sai sempre sozinho nestas noites. Como sempre, parte com a intenção de se juntar a outros


grupos, de criar laços, de encontrar amizades. Mas a verdade é que nunca teve um plano — nem


amigos. Sai como quem sonha acordado, na esperança de que o Carnaval lhe traga aquilo que a


vida nunca deu.

As ruas estão iluminadas, fervilham de som e cor. Música por todo o lado — há ritmos para todos os


gostos, mas reina o calor latino: pagode, forró, samba, farra. É Carnaval. Tudo vibra.


A sua primeira paragem é o PH, restaurante e café situado perto do centro de Ovar, mesmo junto ao


tribunal. Nessa noite, o espaço transforma-se — as mesas afastam-se, a música aumenta, e o PH


torna-se salão, pista, abrigo para os foliões em festa.

Artur chega. O ruído é intenso. O ambiente pulsa. Já há comentários soltos, vozes sobrepostas,


gente mascarada de tudo. Dirige-se ao balcão e pede uma cerveja. Não gosta particularmente de


álcool, mas como bom chacal — palavra que tantas vezes o persegue na sombra — precisa de algo


para segurar na mão, algo que o integre na fauna que o rodeia.


Olha em volta. Reconhece o terreno. Está em modo alerta: os sentidos aguçados, o olhar afiado.


Procura.

Artur tem um objetivo claro, o de encontrar o amor.


E então... ela aparece.

Vinda do nada. Passa pela entrada do PH como se atravessasse uma cortina de luz. As vitrinas


escancaradas deixam que as luzes da rua incidam nela como num palco improvisado.


Ela está vestida de coelhinha. Meias justas que lhe definem as pernas. Um corpo que caminha com


leveza. Cabelos negros pelos ombros. O rosto, de maquilhagem discreta, revela uns lábios


encarnados que sobressaem sob dois olhos verdes que, para Artur, brilham como duas esmeraldas


líquidas.


Mas há mais. Há uma sombra ali, uma leve tristeza escondida atrás da máscara.


Ele precisa de saber quem ela é.


A caça começa.

Artur encurva-se, olhos cerrados, bloqueia o resto do mundo. A mira está presa. Agora é caçador —


o chacal disfarçado de cowboy. Aproxima-se.


— Olá — diz ele, já próximo da rapariga.


— Olá... desculpa, conhecemo-nos?


— Já. Mas tu ainda não sabes. — sorri. — Sou o cowboy, pistoleiro. Fui chamado para te proteger


esta noite. Artur Tenta brincar, criar empatia e quebrar qualquer barreira.


Ela sorri. A isca está lançada. Pode resultar.


— Olá, cowboy. Como te chamas?


— Artur. E tu?


— Bernarda.


— Belíssimo nome — responde ele. Horrível nome, pensa.


Mas a presa tem de se sentir especial. É assim que funciona.


A conversa desenrola-se. Ele oferece-lhe uma bebida. Pergunta se está sozinha. Tudo com leveza


estudada.

— Perdi-me do meu grupo. Não sou daqui, está difícil encontrá-las...


Perfeito, pensa Artur. Uma presa solitária. Mais fácil de conquistar.


Continua a conversa. Faz Bernarda rir. Relaxar. Sente-se a vencer terreno.


— Não te preocupes. Estás comigo. Vamos esperar por elas aqui. Não te deixo sozinha. Sou o teu


cowboy esta noite.

Juntos dançam, riem, fingem que o mundo é só Carnaval. Para Artur, está tudo a correr bem. O plano


resulta e ele sente-se perto de algo bonito.


Mas eis que chegam as amigas.


Em festa, em abraços e ruído, reencontram Bernarda. Quase nem reparam nele. Artur sabe: precisa


de ser aceite pelo grupo. Sem isso, não há conquista, é assim que funciona a coelhada.


Força um cumprimento e diz — Olá, sou o cowboy protetor da Bernarda. Tudo bem?

A confiança trai-o. A frase soa forçada.


O grupo olha. Ri-se. Bernarda também, num misto de embaraço e cumplicidade.


— Cowboy? — diz uma das amigas, já com os olhos brilhantes de álcool. — Pareces mais é um


cowboi... Com essa cara, só te faltam os elásticos para completar a máscara!


O golpe é seco. Cru.


Artur fica mudo. Sente o chão fugir. O espelho mais cruel está agora diante dele — devolve-lhe um


rosto que o mundo não quer ver. O chacal sabe: perdeu. A presa escapou. O grupo tirou-lha das


mãos.

— Feio. Será esta a razão de nunca encontrar o amor? Será mais uma entre tantas? Serei mesmo


uma dessas exceções... um dos que não merecem?


Permanece no seu canto, sozinho e a vê-la partir. Linda, risonha e de volta à savana onde ele nunca


pertenceu. Um território onde só outros caçadores triunfam.


Mas não desiste.


É um chacal.


E a noite ainda é jovem.


A caça continua.


(Continua)

 

 

 

 

 

Edgar Branco https://www.ovarnews.pt/?p=102224

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