segunda-feira, julho 06, 2009

UMA FIGURA TÍPICA: A “Albertina das Roscas”
Texto: Manuel Pires Bastos

Chamava-se Maria Albertina Marques Romão, mais conhecida por Albertina das Roscas, e faleceu com 95 anos de idade.
Natural de Coimbra, veio aos 6 anos para Ovar, na companhia da mãe, Margarida de Jesus Marques, com o fim de tratar de uma deficiência numa perna. Destinada ao famoso clínico local Dr. Cunha, que não lhe deu grande esperança de cura, acabou por cair nas mãos do Sr. Lima, do Jardim da Estação, que, para além de ferrador de profissão, era habilidoso em tratamento de ossos. Mau grado a paga da libra combinada pelo serviço, o habilidoso não foi feliz, e a menina ficou manca para sempre.
Tinha 23 anos quando casou. Habituada a ver a fabricação de roscas na casa das senhoras Carrelhas, junto à actual Vareirinha, onde foi criada com a mãe, mulher de muitas libras e que vestia mandil e capucha, veio a construir forno próprio na casa que alugou e que depois adquiriu ali mesmo em frente, junto da capela do Passo do Horto, onde labutou até aos 80 anos [na foto].
No período de adaptação e ensaio laboral, chegou a deitar ao rio algumas fornadas menos conseguidas. Mas a mão foi-se-lhe tornando certa, e as suas roscas começaram a ter cada vez mais fama e a correspondente procura.
Construiu um forno no Furadouro, na Rua da Capela “nova”, onde cozia, à tarde, para os veraneantes, vindo a pé, à noite, com a criada, para nova fornada em Ovar.
Fez também forno em Matosinhos, onde fabricava, para além das roscas – a sua especialidade –, pão-de-ló, pastelinhos e padas. Nessa altura só vinha à terra nos fins-de-semana, também para cozer. De tal modo o trabalho era absorvente que chegavam a dar com ela a dormir, de pé, agarrada à pá do forno.
Desde que ficou viúva, ainda nova, e durante cerca de 40 anos, foi seu principal colaborador Manuel Dornas, de S. João de Ovar, que tanto enfornava como amassava. Seguiram-se-lhe António de Oliveira e Francisco Ruela, este apenas durante 4 anos, por ausência do anterior.
As roscas feitas em Ovar percorriam todas as feiras e festas da região, levadas, em canastras, à cabeça, por vendedeiras que ganhavam ao dia. E tal era a fama das roscas da Albertina, que outras fabricantes e vendedoras se escudavam com o seu nome, para melhor venda.
Há 2 anos, com a saída do António de Oliveira para a Suiça, o forno fechou-se de vez. Nessa altura já o segredo do fabrico passara para a filha, que possui o mesmo nome da mãe, mas que não quis aproveitar-se das facilidades que a tradição materna por certo lhe concederia.

Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (15 de Dezembro de 1981)

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