terça-feira, março 24, 2026



Nem a tutela valoriza o conselho geral (V) - Por José Lopes
O estado de paralisia que se vive nos conselhos gerais foi de certa forma agravado


com a evolução da rede escolar, com particular relevância para o passo que entretanto


foi dado, com a agregação das escolas secundárias e a consequente transformação em


mega agrupamento. Enquadramento que há muito exige ser reavaliado, uma vez que


são duvidosos os sucessos dos seus propósitos pedagógicos, para além do carácter


economicista de uma gestão centralizada, que deixou unidades orgânicas de


agrupamentos em estado caótico, quer pelo abandono a que acabaram sujeitas, quer pela descaraterização das suas comunidades, tal é o seu isolamento.

Um cenário


deprimente vivido por exemplos em escolas EB 2,3, que com o alargamento dos


agrupamentos de escolas às secundárias, têm vindo a serem reduzidas apenas ao 2.º


ciclo do ensino básico. Uma desvalorização do seu papel na evolução da rede escolar,


que em algumas regiões facilitam mesmo o fomento do ensino privado e de contratos


de associação. Um quadro inquietante que exige clarificação e dignificação destes


ciclos de ensino, que antecedem o ensino secundário.

Uma séria avaliação sobre a evolução a nivel nacional deste processo de agregação das


escolas secundárias aos agrupamentos que então incluiam apenas o Pré-escolar, 1º


ciclo e as EB 2,3 ciclos, exige ser feita, da qual poderia resultar a conclusão de que é


tempo de desagregar as escolas secundárias dos agrupamentos das escolas do ensino


básico, mesmo considerando os 12 anos de escolaridade obrigatória.


Independentemente da evolução de enquadramentos futuros do 1.º, 2.º e 3.º ciclos,


dotar estes ciclos de agrupamento próprio, que o valorize e organize com uma gestão


mais próxima, é ao mesmo tempo caminho para o ensino secundário assumir


igualmente o seu verdadeiro papel na preparação para as etapes seguintes do percurso


escolar, nomeadamente a transição para o ensino superior ou profissional.

Resgatar o ensino básico do atual marasmo em que a evolução da rede escolar o


colocou poderia ser proposta em cima da mesa para debate das comunidades escolares,


assim os conselhos gerais estivessem disponiveis para aprofundar a discussão de temas


encomodos e aparentemente perturbadores nas relações entre órgãos de gestão.

Durante o período de existência deste órgão de gestão, foram várias as alterações que


reajustaram, adaptaram, reformularam, e objetivamente desvalorizaram o conselho


geral (DL n.º 75/2008 de 22 de abril, DL n.º 224/2009 de 11 de setembro ou o DL n.º


137/2012 de 2 de julho). Nenhuma das posteriores mudanças legislativas contribuiu


para resgatar o conselho geral da encruzilhada que lhe foi destinada na própria lei que


lhe deu origem no novo modelo de gestão escolar.

Bem pelo contrário, as mudanças


em função de sucessivos governos, com supostas preocupações sobre o


desproporcionado dominio dos docentes na composição inicial deste órgão, o caminho


imposto por decreto, foi a desvalorização dos profissionais da educação, que


naturalmente, mais contribuem diretamente para o normal funcionamento e gestão da


escola pública. Que papel está reservado a este órgão de gestão que representa democraticamente


elementos dos vários corpos das comunidades escolares, educativas e locais, é uma


questão central para a defesa e valorização da escola pública, que exige


aprofundamento e clarificação neste novo quadro politico que se vive com sinais


inquietantes para a escola publica, ao mesmo tempo que a própria tutela, não


manifesta a necessária sensibilidade para com o conselho geral, que continua a ser


deixado à margem, até pela ausência de qualquer mecanismo representativo nacional,


na definição das politicas educativas e do reforço das suas competências como órgão


de gestão verdadeiramente estratégico na relação com a figura do diretor e respetiva


direção. Situação de reconhecida desvalorização ao longo destes anos centrados no


economicismo que se reflete do essencial da reorganização da rede escolar, em que a


tutela se quis desresponsabilizar do edificado dos estabelecimentos escolares e dos


trabalhadores não docentes. Processo que tenderá a agravar-se com a iniciada


caminhada da municipalização do ensino, que, tanto o PS como o PSD em alternância


no governo, persistem em prosseguir com políticas liberais que passam por valorizar o


ensino privado em nome da liberdade de escolha das famílias, em prejuízo da escola


pública.

José Carlos Lopes https://www.ovarnews.pt/nem-a-tutela-valoriza-o-conselho-geral-v-por-jose-lopes/

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