E assim lá vai ele, o chacal.
Atravessa ruas imensas, embebidas de alegria, onde a música vibra, os risos ecoam e a paixão se espalha em cada esquina. Mas este cowboy—este chacal mascarado—caminha por outro trilho: um deserto da mente, um labirinto de desajuste que o atormenta.
Artur segue, perdido em pensamentos, tropeçando nas memórias que o consomem. Sempre sozinho.
Sempre rejeitado. Um rapaz sofrido, que carrega no rosto a sua sentença. Cada tentativa falhada de conquista acumula-se no peito como cicatrizes invisíveis, e a alegria dos outros torna-se o sal nas suas feridas.
Sempre assim, sempre isto! Tento ser simpático… nada. Tento ser alegre… nada. Tento ser mais frio, mais firme… nada. O destino atormenta-me. Eu só queria alguém. Só queria alguém que me quisesse também.
As ruas esvaziam-se pouco a pouco. A folia continua noutros cantos, mas ali, onde Artur caminha, reina o silêncio. Acima, a lua cheia paira, solene, como se o observasse. E ele, impotente, devolve-lhe o olhar com um suspiro de dor.
E o lamento rompe-se num uivo.
— Que ódio, que tristeza… por que tem de ser tudo assim?
E então, o choro.
Não um choro bonito ou discreto. Mas o choro descontrolado de quem já não se consegue esconder nem de si próprio.
Na rua deserta, ninguém o escuta. Só ele. Só Artur. Preso num vazio de iniciativas, de esperanças frustradas, de ecos interiores. A única companhia fiel que lhe resta é o seu próprio lamento.
Ali, no meio da festa da cidade, há um único folião verdadeiramente mascarado. Finge ser cowboy.
Finge ser alguém que finge ser outro. Mas a verdade é simples e crua: ele não é um, nem o outro.
É apenas um chacal… que se lamenta.
Num momento de introspeção, o seu olhar encontra o reflexo de uma montra. Um vidro gasto, sujo, esquecido como ele.
Artur olha-se, longamente e murmura com uma ruga amarga nos lábios:
— Só me faltam mesmo os elásticos… olha para mim.
(Continua)
Edgar Branco (Ovar)
https://www.ovarnews.pt/mascara-sem-elasticos-vi-por-edgar-branco/
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