domingo, setembro 13, 2026

Santo Lagosta, desde cedo, interessou-se por música. A guitarra tornou-se a sua maior paixão.

Cresceu com ela às costas, treinando incessantemente, aprendendo com cada acorde, aperfeiçoando-se um pouco a cada dia.

O gosto estava lá. Mas o talento… O talento, esse, nunca acompanhou a sua dedicação. Nos melhores dias, era razoável. Nos piores, desafinado.

Enquanto Santo Lagosta se debatia com as suas limitações, via o seu irmão, Santa Camarão, brilhar.

O nome dele ecoava em manchetes de jornal, em conversas nos cafés, nos olhares orgulhosos dos vareiros. Vitória atrás de vitória. Reconhecimento atrás de reconhecimento.

E ele ali. Preso ao seu canto. Mas recusava desistir.

- Eu vou conseguir. Eu vou tornar-me num talento. E vai ser com esta guitarra.

A convicção crescia dentro dele. Mas o tempo passava, e o sonho continuava a escapar-lhe.

Certa noite, depois de um longo turno como empregado de mesa no Café Lampião, Santo Lagosta saiu para caminhar. Exausto, mas incapaz de se separar da guitarra, seguiu pelas ruas da cidade, dedilhando as cordas enquanto cantarolava.

— Ó Lagosta! Ó Lagosta! Pára lá com esse ruído e deixa as pessoas em paz! — gritou um homem à porta de um tasco.

Nem todos eram fãs da sua música. Mas Santo Lagosta não se importava.

Seguiu o seu caminho. Sem destino, sem pressa, sem expectativas e foi então que os seus pés o levaram ao Cais da Ribeira.

Um local carregado de história, onde o cheiro a sal e a madeira velha se misturava com o vento.

Durante séculos, aquele cais fora um ponto de chegada e partida para muitos. Um pedaço da alma de Ovar. Santo Lagosta sempre sentira uma conexão com aquele lugar. Algo no murmúrio das águas o acalmava.

Sentou-se na beira do cais, pernas balançando sobre a ria. A guitarra pousada ao lado.

Respirou fundo e fechou os olhos.

Foi então que viu algo a flutuar na água.

Algo que o fez arregalar os olhos.

No meio das sombras da noite, entre fios de rede de pesca, uma criatura debatia-se.


Uma truta.

Mas não uma truta qualquer.


O peixe brilhava com as cores do arco-íris, cintilando sob a luz pálida do lusco-fusco.


— Mas que diabo…? — murmurou Santo Lagosta.


E então, para seu espanto, a criatura falou.


— Sou uma truta! Ajuda-me, por favor!


Santo Lagosta olhou ao redor, mas a rua estava vazia.

A sua mente girava. Estaria a sonhar?


— Uma truta a falar? Só te falta rir! — exclamou, incrédulo.


— Não estou a brincar! Preciso de ajuda. Se me soltares, concedo-te um desejo.


Santo Lagosta piscou os olhos. Tentou dar um estalo na própria cara para ver se acordava.


Nada mudou.

A truta continuava lá, os seus olhos redondos e brilhantes fixos nele.


— Podes bater-te o quanto quiseres, mas isto é real! Ajuda-me e terás o teu desejo!


E algo dentro dele disse-lhe para acreditar. Mergulhou na água sem pensar duas vezes e libertou a criatura da rede.

A truta deslizou para a liberdade, nadando em círculos antes de emergir novamente.


— O prometido é devido. Terás o teu desejo. Mas há uma condição.


— Uma condição?


— Não podes escolher. Quem escolhe sou eu.


— Isso não faz sentido! — protestou Santo Lagosta.

— São as regras do meu poder. Tens de aceitar.


Santo Lagosta cruzou os braços e ponderou. Aceitaria um desejo sem saber qual seria?


Sorriu. Era um homem alegre, sem grandes ambições. Que mal poderia acontecer?


— Ora bem! Vamos lá a isso. Mostra-me o teu poder, ó Truta Mágica.


A criatura brilhou intensamente e murmurou palavras indecifráveis:


— Labadim, labadá… labadim, labadá… o teu desejo será realidade!

Uma neblina espessa surgiu ao redor da truta.


E, antes que Santo Lagosta pudesse reagir, a névoa avançou para cima dele como uma onda.


O coração disparou. Tentou correr.


Mas tropeçou.


A névoa apanhou-o.


E, de repente, o silêncio.


Santo Lagosta levantou-se devagar.


Sentia-se… normal.


Tentou falar.

— Errrmmm… hummm… hummm… - Nada. Os seus olhos arregalaram-se. Tentou outra vez.


— Hummm… hummm…


Nada. A voz tinha desaparecido. O desejo roubara-lhe o som.


Olhou para o céu, desesperado. Aquela maldita truta!

Mas a truta já não estava lá.


Respirou fundo.


Aceitou o destino.


Pegou na guitarra e começou a caminhar para casa.


No dia seguinte, tentou convencer-se de que era apenas uma indisposição. Que a voz voltaria.


Mas a voz não voltou.

Santo Lagosta agora era um músico sem voz.


E nem imaginava o que o futuro ainda lhe reservava. (Continua)

Edgar Branco https://www.ovarnews.pt/o-irmao-de-santa-camarao-ii-por-edgar-branco/

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