segunda-feira, outubro 26, 2026



A Colheita das Sombras (I) - Por Edgar Branco
A noite dos horrores também tem lugar aqui, nesta cidade encolhida, de ruas estreitas e


becos sombrios, onde as sombras parecem estender-se mais do que deviam. Uma cidade


que ofusca sensações e desejos, onde os dias passam lentos e as noites pesam nos


ombros dos que se atrevem a desafiar o silêncio. Ovar, com as suas esquinas desgastadas


pelo tempo, é uma terra de histórias antigas, de segredos murmurados e de regras não


escritas que todos conhecem, mas poucos ousam desafiar.

À beira do mercado de Ovar, ergue-se um espaço peculiar, uma estrutura antiga que pulsa


com a vida da cidade durante o dia. Um mercado onde se pode comprar quase tudo: frutas


frescas, peixe acabado de chegar do mar, pão ainda quente e os queijos gordurosos que


enchem de aroma os corredores. Um espaço meticulosamente organizado, onde os


vareiros se juntam, cumprimentam-se, trocam palavras sobre a vida, os negócios, as


colheitas, os filhos. Há barulho, há movimento, há o cheiro inconfundível do mercado vivo.

Mas, quando o sol mergulha no horizonte e o dia se rende à noite, tudo muda. O burburinho


transforma-se em silêncio absoluto. As luzes apagam-se. As bancas ficam vazias, os


corredores tornam-se sombras alongadas e as estruturas de metal e madeira parecem


esqueletos à espera de algo para devorar. O mercado, outrora vibrante, torna-se um


labirinto de espaços vazios, escadas sem destino, caminhos largos que se estreitam em


passagens sufocantes. É um sítio de ecos e murmúrios fantasmagóricos.

Não há som. Não há alma viva.


E no entanto... há sempre alguém que entra.

Nem todos respeitam a fronteira invisível que separa o mercado do resto da cidade quando


a noite cai. Alguns saltam os muros, atravessam as cancelas enferrujadas, escondem-se


entre os corredores desertos, exploram os recantos escuros como se procurassem algo que


não sabem nomear. São jovens que buscam emoção, aventureiros inconscientes, ou talvez


apenas aqueles que não acreditam nas histórias contadas pelos mais velhos.

Hoje é sexta-feira 13.

E em Ovar, nesta noite específica, há uma regra conhecida por todos.

Não se sai depois das dez da noite.

(Continua) https://www.ovarnews.pt/a-colheita-das-sombras-i-por-edgar-branco/

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