quarta-feira, fevereiro 04, 2026



1143 razões para Afonso Henriques dar voltas no túmulo - Por Pedro Nuno
 

 

São, no mínimo, 1143 razões para que o monarca que nos fez ganhar a independência de Castela rebole no túmulo, ora incrédulo, ora impotente. Era filho de um imigrante, chamado à pressa de França para defender um território que não era o dele. Acolheu os princípios de Egas Moniz, seu aio.

Procurou, ao longo do tempo, conquistar a autonomia de um espaço que foi ganhando características muito próprias, um curto território que não era mais do que uma mescla de culturas: celta, visigótica, sueva, grega, romana, muçulmana, judaica, etc.

O cruzamento cultural, essencialmente muçulmano, enriqueceu a arte do bom-saber e do conhecimento de matérias que, até então, encontravam-se estagnadas: exemplos disso são a medicina, astrologia, matemática e literatura. A toponímia portuguesa ganhou um brilho abrangente.

Afonso Henriques teve a noção de tudo isso. Tornou-se um conquistador tolerante. Alegres e divertidos eram os convívios entre cristão e islâmicos. Existem telas que mostram campeonatos de xadrez entre eles, provavelmente lavados a cabo ao fim-de-semana.

O comércio desenrolava-se com uma naturalidade cheia de cor, em amena cavaqueira e gargalhadas à mistura, com cristãos, muçulmanas e judeus a entrelaçarem-se como seres humanos que eram à procura de uma vida melhor e mais feliz, sem ódio, sem temperamentos abusivos, sem apelos ao fascismo ou a três Salazares.

Era o humanismo e compreensão a funcionarem, havendo espaço para todos, sem correrem o risco de verem malas suas estranhamente desaparecidas em aeroportos. Outros tempos. Afonso Henriques, impávido, vai rebolando ali, na Igreja de Santa Cruz de Coimbra.

“Entre um mouro que anda na apanha da laranja e um tipo de cabeça rapada que é feliz por insultar marroquinos e cabo-verdianos, há 1143 razões para preferir o primeiro, tá claro!”, diria Afonso.

Pedro Nuno Marques https://www.ovarnews.pt/1143-razoes-para-afonso-henriques-dar-voltas-no-tumulo-por-pedro-nuno/

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