segunda-feira, novembro 02, 2026



A Colheita das Sombras (II) - Por Edgar Branco
Matias e Gonçalo eram amigos de longa data, cúmplices em pequenas aventuras que


sempre os levavam a explorar os recantos mais esquecidos da cidade. Diferente da maioria


dos jovens da sua idade, não se interessavam por bares lotados ou noitadas intermináveis.


Preferiam o entretenimento discreto da sua própria companhia, em conversas que os faziam esquecer do tempo e das responsabilidades. Gostavam do mistério, do desafio, do


desconhecido.


Naquela noite, no entanto, Matias queria ir além.


— Vamos lá, damos uma volta e vemos como é o mercado pela noite. — sugeriu, com o


brilho habitual no olhar, já antevendo a adrenalina da transgressão.


Gonçalo suspirou, cruzando os braços.


— Outra vez com isso? Já te disse, aquilo é igual a qualquer outro sítio quando está vazio.


— Anda lá, deixa de ser assim. Vais ver que é fixe.


O amigo hesitou. Matias tinha esse jeito insistente, uma energia que arrastava os outros


consigo. Mas Gonçalo não estava convencido.


— Mas tu sabes da história, não sabes? — murmurou, com a voz ligeiramente mais grave.


Matias revirou os olhos, já antecipando o rumo da conversa.


— Não me venhas com isso...


— Eu avisei-te.


O silêncio pairou entre os dois. O vento morno da noite agitava-se suavemente, trazendo


consigo o cheiro longínquo do mar.


— Muito bem. Vamos lá então.


Sem mais palavras, os dois avançaram. O muro não era alto, nada que os impedisse. Com


um impulso coordenado, atravessaram-no com agilidade.


Assim que os pés tocaram o chão do mercado, algo mudou. O ar pareceu pesar, carregado


de uma humidade fria que antes não estava ali. A noite permaneceu noite, mas o céu


pareceu... diferente. Como se o breu fosse mais profundo, como se as estrelas estivessem


deslocadas.


E então, olharam um para o outro.


E quase não se reconheceram.


A realidade à sua volta estava intacta e, ao mesmo tempo, completamente alterada. O


mercado continuava o mesmo — as bancas vazias, as escadas de ferro, os espaços


abertos e os becos estreitos. Mas a sensação... a sensação era errada. Algo pulsava na


atmosfera, uma presença invisível, um eco de algo que não devia estar ali.


— Mas que é isto? O que aconteceu? — Matias sussurrou, sentindo o coração acelerar.


Gonçalo cerrou os punhos.


— Isto... Isto é o que eu te avisei.


— Como assim? O amigo respirou fundo, como quem se preparava para contar um segredo


que nunca devia ser dito.


— Dizem que quem salta o muro do mercado, numa sexta-feira 13, tem uma surpresa à sua


espera.


Matias franziu a testa.


— Que disparate... Que lenda é essa?


Gonçalo olhou para ele, sombrio.


— A lenda do mercado. Perguntei-te antes do salto... mas tu nem quiseste saber.


Matias sentiu um arrepio.


— Então explica lá.


Gonçalo hesitou por um instante e depois começou a contar.


— O mercado de Ovar é antigo. Muito mais antigo do que parece. Foi construído para reunir


os vareiros, para ser o coração comercial da cidade. Mas antes disso, bem antes disso, este


terreno... foi um cemitério sem o ser.


Matias riu, mas sem convicção.


— A sério, Gonçalo? Vais mesmo por aí?


Gonçalo ignorou a provocação e continuou:


— Há muitos séculos, houve aqui um desastre. Um colapso do solo. Mil pessoas morreram.


A terra engoliu-as. Sem aviso, sem despedida. Foi como se Ovar tivesse sido amaldiçoada


naquele instante.


A noite pareceu apertar-se ao redor deles.


— Estás a inventar...


— Estou a dizer-te o que sempre foi dito. Desde então, reza a lenda que o mercado, por ter


sido erguido sobre as almas soterradas, está à espera. Espera por outras mil.


Matias sentiu um nó no estômago.


— Espera para quê?


Gonçalo engoliu em seco.


— Para devolver os que foram tomados. Mas para isso, alguém tem de ir no lugar deles.


O silêncio que se seguiu foi esmagador.

Matias tentou rir, mas o som morreu-lhe na garganta.


Os olhos de Gonçalo estavam escuros, refletindo algo que Matias não queria reconhecer.


E então... as sombras ao redor começaram a mover-se. (Continua)

 

 

Edgar Branco https://www.ovarnews.pt/a-colheita-das-sombras-ii-por-edgar-branco/

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