

Matias e Gonçalo eram amigos de longa data, cúmplices em pequenas aventuras que
sempre os levavam a explorar os recantos mais esquecidos da cidade. Diferente da maioria
dos jovens da sua idade, não se interessavam por bares lotados ou noitadas intermináveis.
Preferiam o entretenimento discreto da sua própria companhia, em conversas que os faziam esquecer do tempo e das responsabilidades. Gostavam do mistério, do desafio, do
desconhecido.
Naquela noite, no entanto, Matias queria ir além.
— Vamos lá, damos uma volta e vemos como é o mercado pela noite. — sugeriu, com o
brilho habitual no olhar, já antevendo a adrenalina da transgressão.
Gonçalo suspirou, cruzando os braços.
— Outra vez com isso? Já te disse, aquilo é igual a qualquer outro sítio quando está vazio.
— Anda lá, deixa de ser assim. Vais ver que é fixe.
O amigo hesitou. Matias tinha esse jeito insistente, uma energia que arrastava os outros
consigo. Mas Gonçalo não estava convencido.
— Mas tu sabes da história, não sabes? — murmurou, com a voz ligeiramente mais grave.
Matias revirou os olhos, já antecipando o rumo da conversa.
— Não me venhas com isso...
— Eu avisei-te.
O silêncio pairou entre os dois. O vento morno da noite agitava-se suavemente, trazendo
consigo o cheiro longínquo do mar.
— Muito bem. Vamos lá então.
Sem mais palavras, os dois avançaram. O muro não era alto, nada que os impedisse. Com
um impulso coordenado, atravessaram-no com agilidade.
Assim que os pés tocaram o chão do mercado, algo mudou. O ar pareceu pesar, carregado
de uma humidade fria que antes não estava ali. A noite permaneceu noite, mas o céu
pareceu... diferente. Como se o breu fosse mais profundo, como se as estrelas estivessem
deslocadas.
E então, olharam um para o outro.
E quase não se reconheceram.
A realidade à sua volta estava intacta e, ao mesmo tempo, completamente alterada. O
mercado continuava o mesmo — as bancas vazias, as escadas de ferro, os espaços
abertos e os becos estreitos. Mas a sensação... a sensação era errada. Algo pulsava na
atmosfera, uma presença invisível, um eco de algo que não devia estar ali.
— Mas que é isto? O que aconteceu? — Matias sussurrou, sentindo o coração acelerar.
Gonçalo cerrou os punhos.
— Isto... Isto é o que eu te avisei.
— Como assim? O amigo respirou fundo, como quem se preparava para contar um segredo
que nunca devia ser dito.
— Dizem que quem salta o muro do mercado, numa sexta-feira 13, tem uma surpresa à sua
espera.
Matias franziu a testa.
— Que disparate... Que lenda é essa?
Gonçalo olhou para ele, sombrio.
— A lenda do mercado. Perguntei-te antes do salto... mas tu nem quiseste saber.
Matias sentiu um arrepio.
— Então explica lá.
Gonçalo hesitou por um instante e depois começou a contar.
— O mercado de Ovar é antigo. Muito mais antigo do que parece. Foi construído para reunir
os vareiros, para ser o coração comercial da cidade. Mas antes disso, bem antes disso, este
terreno... foi um cemitério sem o ser.
Matias riu, mas sem convicção.
— A sério, Gonçalo? Vais mesmo por aí?
Gonçalo ignorou a provocação e continuou:
— Há muitos séculos, houve aqui um desastre. Um colapso do solo. Mil pessoas morreram.
A terra engoliu-as. Sem aviso, sem despedida. Foi como se Ovar tivesse sido amaldiçoada
naquele instante.
A noite pareceu apertar-se ao redor deles.
— Estás a inventar...
— Estou a dizer-te o que sempre foi dito. Desde então, reza a lenda que o mercado, por ter
sido erguido sobre as almas soterradas, está à espera. Espera por outras mil.
Matias sentiu um nó no estômago.
— Espera para quê?
Gonçalo engoliu em seco.
— Para devolver os que foram tomados. Mas para isso, alguém tem de ir no lugar deles.
O silêncio que se seguiu foi esmagador.
Matias tentou rir, mas o som morreu-lhe na garganta.
Os olhos de Gonçalo estavam escuros, refletindo algo que Matias não queria reconhecer.
E então... as sombras ao redor começaram a mover-se. (Continua)
Edgar Branco https://www.ovarnews.pt/a-colheita-das-sombras-ii-por-edgar-branco/
Sem comentários:
Enviar um comentário