quinta-feira, maio 21, 2026



Máscara Sem Elásticos (V) - Por Edgar Branco
Artur não desiste.


Ele é o chacal.

Um animal resistente, de fantasia no corpo. Finge ser cowboy no corpo de um homem, mas lá


dentro... lá dentro é outro bicho. Um ser solitário, moldado por fraquezas, falhas, recusas. Vítima de


predadores maiores — mais fortes, mais bonitos, mais ricos. Mas é na persistência que encontra a


sua força. Ele não desiste. Quer amar. E talvez, só talvez... ser amado também.

Segue sozinho pelas ruas de Ovar, a caminhar contra a multidão, em direção ao que acredita ser a


sua última esperança da noite. Vai sorrindo a estranhos, cumprimentando conhecidos. Cada passo é


um esforço. Cada encontro, uma pequena batalha. Entre empurrões, gargalhadas e brilhos, segue o


seu rumo: o parque de estacionamento junto à biblioteca, transformado em recinto de folia, com DJs,


bandas ao vivo e energia em ebulição. É ali que tudo pode mudar.

— Vai ser aqui, pensa.


A noite já vai longa. Muitos estão acompanhados, mas... haverá sempre alguém solitário. Alguém


que precise de companhia.


— E por que não eu?

O pavilhão está cheio. O ambiente, em alta. Quem tinha par já o encontrou. Os lobos já devoraram


as ovelhas. Os leões, as gazelas. Os crocodilos, o que aparecesse. E o chacal... como sempre,


chega sozinho. Invisível. Mas atento.

— Tem de ser aqui.


Artur conhece o seu papel. Sabe o que é. Um cowboy que esconde olhos de predador. Pupilas que


não dilatam. Um sorriso que não chega aos olhos. Um olhar sem alma — como tantos outros — mas


que ele tenta disfarçar. Porque as suas presas esperam um homem doce, não um animal ferido.


Na tenda apinhada, há brechas. Espaços por onde se pode infiltrar. E então... ali está ela. No meio


do grupo.

Marlene.


Uma cara conhecida. Uma antiga colega. Artur sabia que ela tinha sido deixada pelo namorado há


pouco tempo. Sabia detalhes. Observava-a há algum tempo. E agora, como um verdadeiro caçador


de oportunidade, aproxima-se.


— Olá, Marlene, está tudo bem? — pergunta, com um sorriso ensaiado e uma falsa confiança.


— Artur? Ah, olá! Sim... tudo bem. — A música é alta, mas os dois conseguem falar. Ela sorri com


simpatia, mas há dor nos olhos.


— Adoro o teu disfarce! — diz Artur, lançando o elogio.

— A sério? Obrigada... estive na dúvida, mas obrigada.


— Ainda bem, ainda por cima com o frio que está. Estás lindamente. Uma ave de rapina bonita...


adoro estas penas. — Toca-lhe levemente no braço. Ela encolhe-se ligeiramente, mas não se afasta.


— E tu? Cowboy? Pistoleiro também?


— Gostas?


— Fica-te bem.

A conversa flui. Ele mostra-se terno. Atento. Ela, fragilizada, sente-se ouvida. Ele é o ombro amigo. A


figura salvadora num momento de dor. Um camaleão emocional. Pronto para ser aquilo que ela


quiser.

Os olhos encontram-se. Marlene começa a baixar a guarda. A música suaviza, como que cúmplice. E


por um momento, ambos parecem estar sozinhos no meio da multidão.


Mas, como sempre na vida de Artur, há um “mas”.

Uma sombra aproxima-se. Um vulto inesperado. E a voz ecoa: — Marlene, meu amor... perdoa-me.


Eu sou um louco.


Artur congela. Reconhece a voz. O ex-namorado. O mesmo que a deixou.


— Meu amor... claro que te perdoo!


E num segundo, os dois beijam-se. Abraçam-se. E Artur? Artur assiste, mudo. O chacal sem caça. O


espectador da própria derrota.


À sua volta, os comentários surgem em sussurros que o dilaceram por dentro:


— Que cabeça para aquele...


— Que melão...


— Ficou com a vela na mão.


— E com aquela cara... já estragada. Só lhe faltam os elásticos.


Com o pouco orgulho que ainda carrega, vira costas. Rabo entre as pernas, sai pé ante pé, mais uma


vez, ferido.

Mais uma vez... sozinho.

 

 

 

 

Edgar Branco https://www.ovarnews.pt/?p=103270

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