domingo, maio 10, 2026



Portugal perdeu 10.000 bombeiros nos últimos 25 anos, alertou Agostinho Branquinho
 

A Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários de Ovar promoveu, no dia 8 de maio de 2026, a conferência “A Economia Social nas Associações Humanitárias de Bombeiros Voluntários: Retrato, Problemas e Contributos”, apresentada pelo Professor Doutor Agostinho Branquinho, antigo Secretário de Estado da Solidariedade e da Segurança Social. Integrada no programa comemorativo dos 130 anos da instituição, a sessão reuniu cerca de meia centena de participantes e constituiu um momento de reflexão aprofundada sobre o papel das Associações Humanitárias de Bombeiros no quadro da Economia Social em Portugal.

Na sua intervenção, Agostinho Branquinho, cuja experiência governativa e parlamentar lhe confere uma visão particularmente informada sobre o setor social, destacou que os bombeiros representam uma das expressões mais puras da Economia Social, sublinhando que estas associações são estruturas civis que asseguram funções críticas do Estado e que desempenham um papel essencial na coesão territorial e na proteção das comunidades. Recordou que, segundo a Conta Satélite da Economia Social do INE, as Associações Humanitárias de Bombeiros são classificadas como instituições sem fins lucrativos ao serviço das famílias, evidenciando a sua natureza de organizações da sociedade civil orientadas para o interesse público.

Com o conhecimento acumulado enquanto investigador e responsável político na área da solidariedade social, apresentou um retrato detalhado do setor, salientando a existência de cerca de 468 associações em todo o país e mais de 31.000 operacionais, entre voluntários e profissionais, constituindo uma das maiores redes capilares da União Europeia. Sublinhou ainda o impacto económico significativo destas organizações, que geram emprego direto e indireto, asseguram formação, transporte de doentes, reduzem custos no SNS e protegem ativos económicos fundamentais para o desenvolvimento local.

Alertou, contudo, para problemas estruturais que exigem resposta urgente, como a perda de 10.000 bombeiros nos últimos 25 anos e a crescente dificuldade em recrutar voluntários.

Um dos eixos centrais da conferência foi o défice de comunicação estratégica no setor. A partir do estudo empírico realizado em 2024, Agostinho Branquinho, que ao longo da sua carreira pública acompanhou de perto a evolução das Instituições da Economia Social, revelou que mais de 80% das organizações não possuem departamento de comunicação e que a comunicação existente é, na maioria dos casos, reativa, episódica e informal. Sublinhou que, apesar de as instituições reconhecerem o valor da comunicação, continuam a faltar estruturas, planeamento e visão estratégica capazes de reforçar a sua presença no espaço


público. Citou ainda a ideia de Ignacio Ramonet de que “quanto mais se comunica, menos se informa, portanto, mais se desinforma”, para evidenciar a necessidade de profissionalização e rigor.

O professor destacou igualmente as necessidades identificadas pelas organizações, entre as quais o reforço da visibilidade institucional, o aumento da credibilidade junto de financiadores e parceiros, a atração de voluntariado qualificado e a criação de narrativas de impacto social que mobilizem apoios e legitimem a ação das associações. Defendeu que a Comunicação Estratégica deve ser integrada na gestão das instituições como ferramenta essencial para a sua sustentabilidade e autonomia.

Na parte final da conferência, o Professor Doutor Agostinho Branquinho, apoiado na sua experiência académica e governativa, apresentou um conjunto de recomendações para o futuro do setor, incluindo a construção de uma imagem global das Associações Humanitárias de Bombeiros, a criação de estruturas de comunicação internas ou terceirizadas, a partilha de boas práticas, a diversificação das fontes de financiamento, a capacitação de dirigentes e colaboradores, a promoção da transparência e accountability, a cooperação em rede e o reforço legislativo do voluntariado. Defendeu ainda a criação de um ecossistema jurídico que permita o desenvolvimento de um verdadeiro Direito da Economia Social em Portugal.

O presidente da Direção da Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários de Ovar, João Mesquita, agradeceu a presença do Professor Doutor Agostinho Branquinho e sublinhou a importância de trazer a Ovar uma reflexão desta natureza. Referiu que esta conferência integra um ciclo mais amplo de iniciativas que a Associação pretende desenvolver, com o propósito de promover o debate, identificar problemas e contribuir para soluções que reforcem o futuro do setor. Destacou que momentos como este são essenciais para aproximar a comunidade, os agentes do sistema e os próprios bombeiros, criando espaço para pensamento estratégico, partilha de conhecimento e consolidação de uma visão comum para o desenvolvimento do setor dos bombeiros.

A conferência contou com a presença de representantes de várias entidades do setor dos bombeiros, incluindo elemento da Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil, da Liga dos Bombeiros Portugueses e da Escola Nacional de Bombeiros bem como dirigentes e membros de diferentes corpos de bombeiros.


A Câmara Municipal de Ovar esteve representada pela Vereadora Lígia Pode, reforçando a ligação institucional do Município à Associação Humanitária. Na sua intervenção, felicitou a iniciativa e sublinhou a importância de promover momentos de reflexão pública sobre o futuro do setor dos bombeiros, destacando o contributo destas conferências para a identificação de desafios e para a construção de soluções partilhadas. https://www.ovarnews.pt/portugal-perdeu-10-000-bombeiros-nos-ultimos-25-anos-alertou-agostinho-branquinho/

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