domingo, agosto 16, 2026



José de Oliveira Muge: O Homem, o Músico e a Alma Vareira - Por Rafael Gomes Amorim
Ovar despede-se de uma das suas figuras incontornáveis e com um impacto ímpar na sua cultura. José de Oliveira Muge deixou-nos aos 91 anos, mas o seu legado ecoará para sempre nas ruas da nossa cidade, nas melodias das Trupes de Reis e na memória coletiva de uma geração inteira de portugueses.

Para mim, o Conjunto de Oliveira Muge começou por ser, há muitos anos, o conjunto do José Muge e do Policarpo Costa. Mais tarde, tive o privilégio de ser amigo e biógrafo, dedicando-me a documentar a epopeia destes músicos entre 2011 e 2023.

Eles são um pedaço vivo da nossa história coletiva, e o José Muge foi, indiscutivelmente, o grande pilar dessa odisseia.

Homem de princípios férreos e de uma retidão imutável, o José Muge sempre pautou a sua vida por uma ética muito própria, onde a arte e o ensino se elevavam acima de qualquer conjuntura política.

Demonstrou isso de forma cabal nos anos conturbados da descolonização. Nessa época, entre outras funções, era professor de iniciação musical num colégio em Vila Pery, cargo que colocou à disposição com a independência, consciente de que as prioridades do novo país poderiam ser outras.

Contava – me que as novas autoridades moçambicanas mantiveram um enorme respeito por ele e pelo conjunto, convidando-os frequentemente para atuar e a pedir para que os mesmos se tornassem o Conjunto das Forças Armadas.

A resposta do José Muge foi um reflexo puro do seu carácter, pois recusou com firmeza e educação, argumentando que se nunca tinham vestido uma farda no tempo de Portugal, não seria agora que o iriam fazer. Para ele, "Mãe" havia só uma, e eles eram portugueses.

A sua postura era claríssima: a política não era chamada ao palco ou à sala de aula. Gostava de recordar um episódio dos anos 60, quando foram tocar ao baile de finalistas do Liceu de Quelimane onde se cruzou com o Zeca Afonso e ficou do seu lado quando este cantava os “Os Vampiros", mesmo temendo a intervenção da polícia política da altura. Felizmente tudo correu bem, mas o episódio ilustrava bem a sua visão de que o seu papel era levar alegria, recusando misturar a sua arte com fações.

A bússola moral de José Muge guiava-se por dois polos indestrutíveis: a sua profunda fé ligada à Igreja Católica e o amor incondicional à família. Quando partilhei a minha tristeza com a sua família, fi-lo com a certeza de que o sentimento que nos unia transcendia a simples amizade; era uma admiração pura por tudo o que o seu pai conseguiu alcançar ao longo da vida.

O José Muge nunca deixou de seguir os seus sonhos na música, mas fê-lo sempre assumindo, com total dedicação, a responsabilidade de ser pai e chefe de família.

A sua fé era o alicerce silencioso dessa retidão, refletindo-se na forma afável como tratava os outros e na dignidade com que encarava todos os desafios.

Para mim, o José Muge foi um exemplo constante de como equilibrar a vocação artística com a devoção absoluta aos que amamos. Vai deixar imensas saudades.

Musicalmente, o José Muge foi um visionário na nossa terra na década de cinquenta do século passado. Nascido em Ovar, herdou a propensão musical do pai, ensaiador de contradanças, e aprendeu guitarra com Luiz da Inácia, ligado às Trupes de Reis. Fundou o mítico Conjunto Oliveira Muge em finais da década de cinquenta e, em 1962, partiu para Moçambique. Depois de ter passado pelo piano e pelo acordeão, fixou-se no órgão elétrico quando a formação clássica estabilizou.

A gravação de "Mãe" nos estúdios da EMI, na África do Sul, transformou o conjunto num fenómeno. A canção tornou-se um hino de saudade para milhares de jovens portugueses na Guerra Colonial. O seu peso emocional era tão avassalador que o regime a considerou uma “canção perigosa”, limitando a sua difusão nas rádios. O impacto e a força intemporal desta obra levaram, décadas depois, o realizador Miguel Gomes a utilizá-la em filmes premiados como Aquele Querido Mês de Agosto e Tabu.

No regresso a Portugal, em finais de 1975, o José continuou a dar tudo de si à comunidade vareira. Dirigiu o Grupo Folclórico da Região de Ovar e criou, em 1983, "As Tricanas de Ovar" e abriu a loja “Mundo da Canção” que tantos de nos, adolescentes, por la passaram.

O Conjunto de Oliveira Muge nunca teve um fim oficialmente decretado, pois a profunda amizade entre os seus membros era o verdadeiro elo que os mantinha unidos. Hoje, essa união transcende a vida. Ovar fica mais pobre, mas o legado de José Muge viverá eternamente em cada acorde que ressoe na nossa terra.

 

Nota Final: Roteiro de Publicações

Para quem quiser acompanhar a fundo a verdadeira história do Conjunto Oliveira Muge, partilho o roteiro de investigação publicado ao longo dos últimos anos:

2020 | A História do Conjunto Oliveira Muge: Portugal, Ovar e Música (Revista Dunas Nº 20): A evolução da cena musical de Ovar nas décadas de 50 e 60, desde as primeiras formações de José de Oliveira Muge até à entrada decisiva do jovem vocalista Policarpo Costa.

2021 | A História do Conjunto Oliveira Muge: África, Moçambique, Vila Pery e Música (Revista Dunas Nº 21): A notável jornada musical do grupo em África nos anos 60, abordando o sucesso, os desafios e o impacto cultural além-fronteiras.

2022 | A Verdadeira História da "Mãe" no seu 60º Aniversário (1962 - 2022) (Revista Dunas Nº 22): O impacto cultural da canção, a sua utilização no cinema contemporâneo e a sua relevância para os soldados portugueses na guerra colonial.

2023 | Conjunto Oliveira Muge - A Afirmação, o Ocaso e o Regresso (Revista Dunas Nº 23): A trajetória completa: da afirmação mediática na Rodésia e Moçambique até ao ocaso e eventual regresso a Ovar.

Rafael Gomes Amorim - Natural de Ovar, licenciado e Doutor em direito pela Universidade de Vigo, é Conselheiro Técnico na Representação Permanente de Portugal junto da União Europeia. https://www.ovarnews.pt/jose-de-oliveira-muge-o-homem-o-musico-e-a-alma-vareira-por-rafael-gomes-amorim/

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